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Ninguém vai te ensinar a viver

Esqueça os guias e manuais. Preparada ou não, a vida vai te pegar de jeito. No escuro, de surpresa. Rápido feito um tapa na cara, intenso feito orgasmo. Acontece com todo mundo. Quando menos se espera, ela salta na sua frente e te nocauteia com a força de dez Alis. A contagem se inicia, tudo fica turvo e a gente tateia em busca de algo pra se apoiar. No corner, centenas de treinadores gritam ordens e estratégias. Pais, tias, primos, fiadores, filhos. Cada um com sua própria estratégia “infalível” de vitória.

“Se case”, “tenha filhos”, “não come isso”, “e os namoradinhos?”, “fecha as pernas”, “seja educada” e coisa e tal. Uma confusão de vozes e nenhuma delas é a sua. É complicado se fazer de surdo, mas às vezes é preciso. Ninguém sai sem um arranhão ou dois e quanto mais cedo você se acostumar com essa ideia, melhor. No entanto, nada de baixar a cabeça esperando a contagem final. Lute do seu jeito. Seja dançando, fazendo finta, plantando bananeira ou rindo descomedidamente dos erros e acertos. Não há fórmula mágica. Nunca houve e nunca haverá.

É preciso coragem para olhar nos olhos, um pouco de gingado e, claro, muito preparo. Se você acredita que vai se dar bem apenas por conta de alguma habilidade inata, prepare-se pra levar a maior surra. Toda vitória é fruto de esforço e renúncia. Muito suor, alguns hematomas e por aí vai.

Estamos posicionados entre a ordem e o caos. Estamos ali, feito cego em tiroteio enquanto o tal Universo se decide o que vai ser de tudo que existe. Enquanto isso, uns se apegam à transcendência, outros à ciência ou aos livros e muros da academia. Também existem aqueles que, como eu, preferem o álcool, a pele e o hábito de agricultor obsoleto que ainda colhe suspiro em pé do ouvido. Mas todos nós vamos para o mesmo lugar: a lona.

Não, peraí. Nada de pessimismo. Não tenho paciência pra isso. São rounds de menos pra ficar remoendo toda essa coisa existencialista. O tempo corre, mais rápido que o velocista mais ligeiro. Quem tenta acompanhar come poeira. Como diria Siba, “se eu correr atrás do mundo eu vou gastar meu calcanhar”. Melhor não. Vamos experimentar, fazer do nosso jeito, mesmo que isso acarrete um escorregão ou um knock down.

Mas e daí? Não é uma briga de rua. Lembre bem disso. Existem algumas regras. Mas quem deve ditar o ritmo é você, ninguém mais.

Imagem de capa: Rawpixel.com/shutterstock

Jocê Rodrigues

Editor, escritor e jornalista.

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