Eu já fiquei na área vip. Eu já fui para a sala vip. Eu só nunca me senti vip.
Para algumas pessoas eu sou importante, muito importante, que bom! Essa é a ideia desde o começo da vida.
Mas eu sou mais uma na multidão e ponto. E assim me sinto à vontade.
Não me encanta a exclusividade. Gosto de coisas que todo mundo tem, não ligo se uso roupas iguais às outras pessoas.
Não me convencem algumas classificações. Quem determina, quem julga, quem conclui? Papéis comprados, posições negociadas, muita propaganda, pouca verdade.
Não quero recompensas pelo que não fiz para merecer. Não sou melhor porque conheço as pessoas certas, não me torno mais encantadora porque estou para o lado de dentro da cordinha.
Eu quero a mistura, a liberdade de ficar ou sair, o sufoco de não ser tão especial nem exclusiva, mas ser quem bem entendo.
Quem quiser a área vip, que lute por ela, que a conquiste, que se entrose. É bom lá, é exclusivo. Mas para mim, é solitário.
Eu não quero olhar de cima, nem para trás. Eu quero olhar nos olhos, descobrir nuances que só acontecem com a mistura. Mistura de cores, de línguas, de peles, de gostos, de dúvidas.
Não quero ser diretoria, quero ser parte da romaria. Quero a rua, as risadas altas, a cerveja do boteco naquele copo pequeno.
Quero o cachorro-quente, o acarajé da baiana, a pipoca, doce embaixo, sal em cima.
Não quero ter rosto de vinte anos a menos. Quero as marcas do tempo que me pertencem, que guardam as vezes em que franzi o rosto, que me arrebentei no choro, que gargalhei até soluçar.
Não quero ser vip para uma plateia que não me interessa. Quero ser importante para quem é importante para mim. Sem cordinha, sem pulseirinha. Selecionados só pelas afinidades.
Imagem de capa: Reprodução
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