Celebridades

Aos 14, ele decidiu que nunca mais seria vítima da madrasta — anos depois, Hollywood inteira conheceu seu nome

Os personagens mais conhecidos de James Garner costumavam escapar das situações perigosas usando inteligência, ironia e alguma habilidade para perceber quando uma briga não valia a pena. Ainda assim, quando alguém ultrapassava certos limites, eles dificilmente recuavam.

Essa característica, presente tanto no jogador Bret Maverick quanto no detetive Jim Rockford, tinha uma ligação incômoda com a infância do ator. Muito antes de encontrar espaço em Hollywood, Garner precisou enfrentar a violência dentro da própria casa.

A infância marcada pela perda e pelos maus-tratos

James Scott Bumgarner nasceu em 7 de abril de 1928, na cidade de Norman, no estado norte-americano de Oklahoma. Ele tinha apenas quatro anos quando perdeu a mãe e passou um período vivendo com parentes, separado de seus dois irmãos.

A família voltou a morar junta depois que seu pai se casou novamente. A convivência, porém, transformou a casa em um lugar de medo. Anos depois, Garner relatou em sua autobiografia que a madrasta agredia regularmente os três meninos com os objetos que encontrasse pela frente.

Segundo registros baseados no livro The Garner Files, ela também submetia James a humilhações, incluindo obrigá-lo a usar um vestido em público como forma de punição.

O limite chegou quando ele tinha 14 anos. Após mais uma situação de violência, o adolescente reagiu fisicamente contra a madrasta e deixou claro que não aceitaria continuar sendo agredido. Os relatos populares descrevem um confronto intenso, mas o ponto confirmado por sua autobiografia é que Garner saiu de casa naquela idade, após anos de maus-tratos.

Sem uma estrutura familiar estável, começou a trabalhar cedo. Passou por supermercados, postos de gasolina, restaurantes, instalações telefônicas e serviços como salva-vidas e colocador de carpetes. A atuação ainda estava bem distante de seus planos.

Duas vezes ferido durante a Guerra da Coreia

Aos 16 anos, Garner ingressou na Marinha Mercante. Mais tarde, em 1950, foi convocado para o Exército dos Estados Unidos e enviado à Guerra da Coreia, onde serviu como soldado de infantaria.

Durante os combates, foi ferido duas vezes. Na primeira ocasião, estilhaços de um morteiro inimigo atingiram seu rosto e uma das mãos. Na segunda, foi atingido por disparos feitos acidentalmente por uma aeronave norte-americana enquanto tentava entrar em uma trincheira.

Os ferimentos lhe deram direito a duas medalhas Purple Heart, concedidas a militares feridos ou mortos em ações de combate. A segunda condecoração só foi oficialmente entregue em 1983, mais de três décadas depois do episódio.

Garner raramente falava de sua experiência militar em tom heroico. A guerra reforçou uma postura que posteriormente apareceria em seus personagens: evitar a violência sempre que possível, sem confundir prudência com covardia.

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Uma oportunidade sem nenhuma fala

A entrada de Garner na atuação ocorreu quase por acaso. Aos 25 anos, enquanto trabalhava colocando carpetes, ele encontrou o escritório de Paul Gregory, um conhecido de anos anteriores que havia se tornado produtor e agente.

Gregory ofereceu a ele uma pequena participação em The Caine Mutiny Court-Martial. Garner interpretava um dos integrantes do tribunal e permanecia no palco, mas não tinha nenhuma fala.

O papel silencioso acabou funcionando como uma escola particular. Durante as apresentações, ele observava de perto Henry Fonda, John Hodiak e Lloyd Nolan. Garner ficou especialmente interessado na maneira discreta e natural com que Fonda interpretava, sem gestos desnecessários ou exageros.

Depois de pequenos trabalhos na televisão e no cinema, ele assinou contrato com a Warner Bros. Em 1957, recebeu o papel que mudaria sua carreira: Bret Maverick, protagonista da série de faroeste Maverick.

O personagem fugia do modelo tradicional dos pistoleiros televisivos. Maverick preferia conversar, negociar ou simplesmente ir embora antes de sacar uma arma. Era um jogador bem-humorado, desconfiado e muito mais preocupado em permanecer vivo do que em demonstrar valentia.

A combinação funcionou. A série transformou Garner em uma das figuras mais populares da televisão norte-americana no final da década de 1950.

O processo que o fez abandonar uma série de sucesso

O reconhecimento não impediu que Garner entrasse em conflito com a própria Warner Bros.

Durante uma greve dos roteiristas, em 1960, o estúdio suspendeu o pagamento do ator, embora continuasse impedindo que ele trabalhasse para outras empresas. Garner contestou a medida e considerou o contrato encerrado.

O caso chegou à Justiça. A decisão concluiu que a greve não havia interrompido de maneira suficiente as atividades da Warner para justificar a suspensão do salário. Garner recebeu o direito de deixar o contrato e saiu de Maverick enquanto a produção ainda era um dos grandes sucessos da televisão.

Livre do estúdio, ele se concentrou no cinema e participou de filmes como Infâmia, Fugindo do Inferno, Não Podes Comprar Meu Amor, Grand Prix e Uma Batalha no Inferno.

Garner também se envolveu seriamente com automobilismo durante a preparação para Grand Prix, lançado em 1966. Seu desempenho ao volante chamou a atenção dos profissionais contratados para treinar o elenco, e a paixão pelas corridas permaneceu depois das filmagens.

Jim Rockford repetiu o sucesso de Maverick

Em 1974, Garner retornou à televisão como o investigador particular Jim Rockford, de Arquivo Confidencial, título pelo qual The Rockford Files ficou conhecido no Brasil.

Rockford morava em um trailer, cobrava valores relativamente modestos por seus serviços e acumulava contas atrasadas. Em vez de enfrentar todos os criminosos no braço, ele recorria a disfarces, telefonemas falsos e negociações improvisadas.

A série permaneceu no ar até 1980 e rendeu ao ator cinco indicações consecutivas ao Emmy. Em 1977, Garner venceu o prêmio de melhor ator em série dramática.

O trabalho, entretanto, cobrou um preço físico. Ele realizava várias cenas de ação e já carregava lesões antigas, agravadas pelas gravações frequentes. Problemas nos joelhos e nas costas passaram a acompanhá-lo durante boa parte da vida.

Anos depois, Garner voltou a enfrentar um grande estúdio. Ele acusou a Universal de esconder parte dos lucros obtidos com reprises e vendas internacionais de The Rockford Files. O processo, que cobrava US$ 16,5 milhões, terminou em um acordo confidencial em 1989.

Um casamento iniciado após duas semanas

Fora das telas, Garner construiu uma vida familiar bem mais reservada. Ele conheceu Lois Clarke em agosto de 1956, durante um evento político, e se casou com ela aproximadamente duas semanas depois.

O ator adotou Kimberly, filha de Lois de um relacionamento anterior. Em 1958, o casal teve Greta, conhecida como Gigi. Garner chegou a alterar legalmente seu sobrenome de Bumgarner para Garner para evitar que Kimberly enfrentasse confusões com os diferentes nomes usados pela família.

A união atravessou períodos difíceis e momentos de afastamento, mas os dois permaneceram casados até a morte do ator.

A indicação ao Oscar e o reencontro com um novo público

Aos 57 anos, Garner recebeu sua única indicação ao Oscar de melhor ator por O Romance de Murphy, lançado em 1985. No filme, ele interpretou um farmacêutico viúvo que se aproxima de uma mulher recém-divorciada, vivida por Sally Field.

Nas décadas seguintes, participou de produções como Maverick, Cowboys do Espaço e Meus Queridos Presidentes. Em 2004, passou a ser reconhecido por outra geração ao interpretar o idoso Duke em Diário de uma Paixão.

Garner morreu em 19 de julho de 2014, aos 86 anos, menos de um mês antes de completar 58 anos de casamento com Lois.

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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