Marcel Camargo

De que vale a riqueza quando se tem um coração miserável?

Imagem de capa: Nick Starichenko/shutterstock

Não podemos é priorizar tão somente nossa capacidade de compra como um referencial exclusivo do quanto somos felizes e realizados. Não podemos é focar nas aparências os nossos propósitos de vida, tampouco julgar o outro a partir de sua conta bancária.

Já se tornou lugar-comum dizer que o “ter”, hoje, passa por cima do “ser”, atropelando-o e se sobrepondo como condição insubstituível para se destacar no mundo. Já nos cansamos de ler e de ouvir reflexões que nos alertam para a necessidade de cuidarmos de nossa essência humana, ou o que tivermos lá fora de nós de nada adiantará durante as tormentas que virão. Mesmo assim, nada parece mudar, haja vista a supervalorização do consumismo cada vez mais intenso.

Todos gostamos de comprar e de adquirir bens, de comer bem, não há mal nisso. Não podemos é priorizar tão somente nossa capacidade de compra como um referencial exclusivo do quanto somos felizes e realizados. Não podemos é focar nas aparências os nossos propósitos de vida, tampouco julgar o outro a partir de sua conta bancária. É lógico que conforto material é bom, mas devemos ter a clareza de que o sossego da alma independe da quantidade de dinheiro que temos guardado.

Da mesma forma, muitos de nós confundimos sucesso com supersalário e status, como se as pessoas só conseguissem se realizar na vida, caso elas ganhassem salários altos em profissões valorizadas pela sociedade. Na verdade, é perfeitamente possível alguém ser feliz e realizado longe dos holofotes sociais, fazendo algo de que goste muito, mesmo que ganhe pouco dinheiro com isso. Realização pessoal é algo íntimo e se refere a sentimentos.

Tal fato se constata ao vermos quantos pais se intrometem nas escolhas profissionais dos filhos, muitas vezes distanciando-os do que eles realmente gostariam de fazer, para que possam corresponder aos sonhos de todo mundo, menos ao deles próprios. Eu mesmo conheci, dia desses, aqui na minha cidade, um homem que passa a semana na borracharia do pai, onde se realiza, e , aos finais de semana, faz plantões nos hospitais, utilizando o diploma de médico que o pai fez questão de que ele tivesse.

Quantos casos vemos de pais de família que se suicidam e até matam os familiares, após perderem tudo o que tinham? Passaram a vida se apegando somente ao material, ou seja, quando não há mais bens, a eles nada mais parece restar na vida. Esqueceram-se de cultivar também a fé, o espiritual, o amor enfim, tudo o que sempre ficará, mesmo que se percam emprego, casa, carro, bens materiais.

Porque, caso mantenhamos bem nutridos os espaços afetivos dentro de nós, com certeza conseguiremos atravessar os vendavais dessa vida, reerguendo-nos e continuando, junto a quem caminha ao nosso lado com verdade e amor sincero.

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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