Produzido, escrito, dirigido e estrelado por Don Cheadle, Miles Ahead é apenas um pequeno fragmento da representatividade musical e multicultural do legado de um dos maiores gênios, o trompetista Miles Davis. A cinebiografia foi concebida com muito carinho aos olhos de Cheadle que, desde o início, prezou pela autenticidade sem perder o olhar realista daquela que fora uma figura fundamental para expansão artística entre os mais diversos músicos espalhados pelo globo – seja qual for o gênero pertencente, a maioria bebeu de Kind of Blue e de outros trabalhos primorosos de Miles.
A narrativa da produção abrange poucos anos da vida do controverso Miles, mas a direção de Cheadle passeia tão pontualmente nesses curtos espaços que o espectador mal sente a necessidade criativa da exposição mais densa e procedural no roteiro. Afinal, o importante aqui é salientar como, aos poucos, Miles Davis despertava sentimentos oníricos através da sua música e, nos encantos colossais dos sopros e melodias, elevava o nível para um patamar desconhecido. No improviso, mas também na construção pura, Davis foi um visionário acima de qualquer dúvida e suspeita. A música transcorria absurdamente nas suas veias.
Cheadle está particularmente envolvido na atuação. É contemplativo observar o esforço quase que natural do astro em entregar a melhor performance da carreira e digna dos mais altos prêmios, diga-se. Apoiado, na maioria por atores desconhecidos, com exceção de Ewan McGregor, no qual o diretor/roteirista/produtor/protagonista confessou ter procurado para integrar o elenco unicamente pela necessidade da produção contar com um nome conhecido para ser filmado – aí entra o velho e costumeiro desserviço do cinema contemporâneo. Mas conseguiram, todos os envolvidos, presentear cada amante da viagem transposta em notas diversas, com a possibilidade da admiração de um cinema realista e transcendente.
Miles Ahead é, inquestionavelmente, uma das obras cinematográficas mais intensas já realizadas. E Cheadle merece todos os frutos colhidos. Davis não gostava que a sua música fosse rotulada como jazz. Segundo o próprio, era social music (música social). Que a sociedade respire, viva e entenda um pouco mais da alcunha descrita por alguém que fez música de verdade.
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