Levei um tombo e uma lição

O chão é duro de pisar, mais duro ainda de cair, mas acontece sem aviso, preparação, modos ou cabimento. Basta um segundo para a perspectiva ser outra, a mais rasteira possível.

Quando minha filha era pequena e caía, eu costumava bater tantas palmas e exclamar sorrindo, que ela chegava a provocar novos tombos, para repetir as comemorações. Mas, até aí, funcionava bem a coisa de evitar as lágrimas e a mágoa de se expor dessa maneira tão patética. Tanto a bundinha de fralda quanto o abraço da mamãe confortavam a queda e os raladinhos.

Mas a gente cresce e endurece. E cada tombo vai deixando uma marca, uma lembrança, uma cicatriz, um receio. Eu já levei tantos e de tantas formas que nem vergonha sinto mais. Mas dor ainda sinto.

Um tombo pode tirar a gente da concentração, do sério, do prumo, da bobeira. Um tombo pode dar sérios problemas, um leve susto, um gesso, uns dias de folga, um motivo para pensar…

Anteontem levei um tombo e, refazendo a cena, não há dúvidas: Foi literalmente um desabamento. As pernas não aguentaram o peso do coração. Eu vinha jurando que estava ótima e que nada no mundo me abalaria, mas, uma depressãozinha no asfalto, um pé que bambeou, e lá fui eu para o chão, deixando minha dor marcada no piso e carimbada no joelho.

Uma queda rápida e um choro sentido, magoado, saudoso, desamparado. Chorei de dar dó. Mais do que o joelho sangrando, chorei pela distração de não prestar a devida atenção aos sentimentos que me rondavam.

Chorei por ter que aprender mais uma vez que saudade não se reprime, que solidão não se ignora, que tristeza só vai embora quando pode entrar e ficar pelo tempo que precisa para se transformar. Chorei um luto que ainda não havia chorado. O tombo me ensinou!

A dor já se foi, levando com ela toda aquela agonia que estava represada. E, como se agora eu fosse a filha, e de fato sou, ouvi aquela voz dizendo: Passou! Valeu, mãe, agora eu entendi.

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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