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Esse dorama da Netflix começou tímido… e terminou sendo o mais provocante que a plataforma já lançou

Tem filme que tenta “explicar” desejo como se fosse um relatório — e aí perde a graça. Amor com Fetiche (Love and Leashes), disponível na Netflix, vai por outro caminho: ele presta atenção no que acontece quando a vida adulta exige pose o tempo todo, e uma curiosidade bem específica aparece no meio do expediente.

O resultado é uma comédia romântica coreana de 118 minutos que usa desconforto, cuidado e conversa como motor da história.

A situação começa com um erro bobo, daqueles que a gente sabe que vai dar ruim: uma encomenda vai parar na mesa errada.

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Em vez de transformar isso em “escândalo”, o roteiro usa o momento como gatilho para algo mais interessante — dois colegas que passam a negociar, com clareza, limites e expectativas, num tipo de relação que depende muito mais de confiança do que de impulso.

A própria Netflix define o filme como uma relação contratual entre colegas, dentro de uma dinâmica consensual.

O que chama atenção aqui é o tom: o longa não trata o fetiche como extravagância de vitrine, nem como “segredo proibido” feito só pra chocar.

Ele vira uma espécie de idioma privado entre duas pessoas que, fora dali, são obrigadas a parecer impecáveis. E isso conversa direto com o cenário escolhido: o escritório, onde todo mundo aprende a calibrar sorriso, postura e opinião pra não virar alvo.

Quando alguma coisa foge do padrão, o risco não é “o desejo em si” — é virar assunto na roda de comentário, na piadinha atravessada, no julgamento disfarçado de preocupação.

A química do casal também não nasce de clima pronto. Ji-woo e Ji-hoo se aproximam no ritmo do combinado: tem conversa antes, tem regra, tem tentativa, tem correção de rota.

Esse cuidado muda o peso do filme inteiro, porque desloca o foco de “quem manda” para “quem escuta”.

E aí a graça aparece no atrito humano: a trapalhada de lidar com o que não se encaixa no comportamento “adequado”, o nervosismo de parecer normal quando você está, por dentro, um caos bem educado.

O elenco segura bem essa ambiguidade. Seohyun faz uma protagonista que não vira caricatura “libertadora” nem ingênua: ela é competente, curiosa, e também cheia de receios quando percebe onde está se metendo.

Lee Jun-young entrega um personagem que, por fora, tenta ser exemplar — e, por dentro, carrega vergonha acumulada de experiências passadas.

Os dois funcionam porque o filme deixa claro que ninguém ali está “resolvido”; estão tentando, meio sem manual, e isso soa bem mais adulto.

Outro ponto esperto: a história tem humor, mas não ri do fetiche como piada pronta. O riso vem do teatro social — o esforço de manter reputação, o pânico de ser descoberto, a hipocrisia silenciosa de um ambiente onde todo mundo finge neutralidade enquanto mede o colega pela régua do “aceitável”.

E, conforme a relação avança, o filme vai deixando mais nítido que o centro não é a curiosidade inicial, e sim o que acontece quando a intimidade começa a atravessar a armadura do dia a dia.

Pra completar, Amor com Fetiche é adaptação do webtoon Moral Sense (que também é o título coreano do filme), e mantém essa pegada de romance com comentário social: leve na superfície, atento nas entrelinhas — especialmente quando toca no medo de exposição e no preço de sustentar uma imagem impecável o tempo inteiro.

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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