Dizem que a experiência faz o mestre… Será?

O tempo tem a indiscutível missão de operar transformações em nós. Mesmo a mais teimosa das pessoas, mais dia menos dia, acaba se rendendo às areias do tempo. A passagem dos minutos; das horas; dos dias; dos anos; das vidas, vão modulando dentro de nós a nossa maneira de vermos o mundo, de nos vermos e de entender a maneira do mundo de nos ver.

Quem será que faz os ponteiros dispararem durante o tempo que dura um beijo apaixonado, um fim de tarde morno na praia, um amanhecer azul de inverno visto do topo de uma montanha, a primeira noite de amor, o primeiro colo que oferecemos ao filho recém-nascido, o último abraço de conforto que entregamos ao pai?

Quem terá o poder de fazer emperrar o relógio e impedir que os minutos escoem nas situações dolorosas a que somos submetidos; nas noites insones; nas enfermidades que roubam de nós o brilho da vida; nas experiências de perda que ninguém pode passar por nós.

O tempo que passa é mensurável, real e físico. O que fazemos dele, é tão subjetivo quanto a interpretação de um poema ou a capacidade que temos para descrever o sabor de um beijo. São as experiências vividas que determinam o quanto fomos espertos, lentos ou refratários diante das oportunidades infinitas de aprendizagem às quais somos apresentados a cada dor suportada, a cada prazer sorvido aos poucos ou apressadamente.

A sabedoria que tanto almejamos alcançar tem muito menos a ver com o tempo do que com a nossa disposição em nos entregarmos de corpo inteiro e alma desarmada. É a coragem de aceitar que é inevitável sangrar às vezes, esperar que cicatrize para só então, tentar entender o propósito de nossa passagem por esse planeta tão confuso e belo, ao mesmo tempo, que fará de nós um pouco mais humanos e menos intolerantes.

E, se tivermos alguma paciência, seremos presenteados com lições de rara beleza que nos permitirão avançar alguns passinhos para longe de nossa pretenciosa ambição de controle e poder. E, liberados da ansiedade pelo brilho das glórias, seremos aprendizes eternos. Haverá sempre alguma lição mal compreendida ou pouco aprofundada esperando que abandonemos o conforto das coisas conhecidas a fim de nos aventurarmos por caminhos mais estreitos e pouco iluminados.

A nossa vida aqui neste tempo presente não pode ser aceita simplesmente como a consequência direta de nossas ações e escolhas pregressas; seria simplificar demais acreditar em tão descomplicada explicação. Somos o que fazemos de nós a cada instante. Somos os “sins” e “nãos” que proferimos; somos a mão que estendemos ou o abraço que negamos; somos o alimento que partilhamos ou a sede que infringimos; somos a chuva mansa que acaricia ou a tempestade que arruína.

E o futuro, o que nos espera lá na frente é um mistério insondável, tão assustador quanto belo. A nossa vida no tempo que ainda virá é também a somatória de missões assumidas, desejos projetados e vaidades abandonadas. Para sermos mestres é necessário e indispensável que nos encharquemos de humildade diante daquilo que não podemos modificar. Seremos mestres quando finalmente compreendermos que saber algo ou muita coisa isoladamente, ignorando a necessidade ou contribuição do nosso irmão, é optar pela arma que mutila gerada pela mesma ideia que fez germinar a ferramenta que cura.

Ana Macarini

"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

Recent Posts

Perdeu muito peso e seu plano de saúde se recusa a custear a sua cirurgia reparadora? Saiba o que fazer

Por Nara Rúbia Ribeiro, advogada especizada em Direito Médico e da Saúde Você conseguiu. Após uma…

5 horas ago

Higiene no equipamento desportivo: como lavar e eliminar odores dos sacos e mochilas de padel

Um saco de padel utilizado com regularidade acumula suor, humidade e resíduos de equipamento húmido…

2 dias ago

Esta resiliente atriz marcou os anos 2000, sumiu dos holofotes após tragédia pessoal e hoje quase ninguém reconhece

Nos anos 2000, ela se tornou conhecida do público britânico, principalmente por causa de sua…

3 dias ago

O ano era 1980, e essa música não saía do rádio… Marcou uma geração! Será que você ainda reconhece?

A batida começa e a memória entrega tudo… Essa música virou febre em 1980. Será…

3 dias ago

Há quase 50 anos esta música estourou nas rádios mas hoje quase ninguém lembra. Você reconhece?

Um hino que soa como uma porta de entrada para os anos 80: acelerada, sensual…

3 dias ago

Todos olham para a família, mas é a empregada ao fundo que guarda a grande história

Na foto de 1961, ela ficou atrás de todos — mas sua vida não ficou…

3 dias ago