Ana Macarini

Criaturas execráveis escondidas por roupas de grife

Estava eu resolvendo umas coisinhas na alameda Lorena, em São Paulo, quando decidi comprar umas outras coisinhas num fino e conhecido mercado situado nesta rua.

Antes das compras, decidi usar o banheiro do chique estabelecimento. Ao chegar na porta do toilette, uma gentil funcionária – que retribuiu ao meu bom dia com um sorriso – realizava a limpeza do local.

Havia também ali uma senhora – que ignorou o meu bom dia com uma cara daquele negócio que as vacas e bois fazem depois de comer. Pois é! A referida senhora – toda trabalhada na grife, dos pés à cabeça, incluindo uma bolsa cujo valor é suficiente para comprar um carro popular -, utilizou o banheiro impecavelmente limpo antes de mim, posto que havia chegado primeiro. Saiu com a mesma cara que usou para não me dar bom dia.

Quando finalmente eu entro no reservado para dar conta de minhas necessidades humanas, me deparo com o assento do vaso sanitário todo respingado de urina (será que urina tem grife?), e a descarga repousava sem ter sido acionada.

Meu choque só não foi maior do que a minha vontade de esganar a perua “etiquetada”. Infelizmente não consegui encontrá-la depois. Pois, como se diz na linguagem policial “a meliante evadiu do local”.

Moral da história: Educação vem de berço, sim! Mas não de um berço feito de madeiras caríssimas ou coisa que o valha! Educação vem de valores humanos familiares, que incluem respeito pelos semelhantes e diferentes! A tal senhora pseudo-elegante conseguiu em uma única urinada revelar o nível baixo de seu caráter!

O mundo está doente. E a doença somos nós! Adoecemos o mundo a cada vez que fingimos achar normal comportamentos arrogantes, depreciativos ou abusivos. Essa coisa se alastra feito viroses ainda não catalogadas. São disfarçadas por estampas finas, em cujo interior habita a pior espécie de gente.

E, caso você esteja aí pensando “Nossa! Mas será que precisa de tanto barulho só por causa de uns respingos de urina?!” – e eu responderei “Sim! Mil vezes sim!” -, porque não se trata apenas do xixi dessa criatura revestida de grife. Nesse pequeno gesto aprecem claramente comportamentos explícitos de desrespeito pelo outro; desrespeito pela moça que limpou o banheiro antes e desrespeito por todas as outras moças que viriam a utilizar o espaço depois.

Sendo assim… Um “Salve!” para todos nós que somos capazes de tratar os espaços públicos, com a mesma deferência que tratamos as nossas propriedades privadas! E, desde já, agradeço e peço desculpas pelo trocadilho!

Imagem de capa: Reprodução

Ana Macarini

"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

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