Ana Macarini

Aprender a seguir em frente apesar dos adeuses

Crianças costumam ter maior facilidade para compreender e operar com ideias relacionadas à adição; somar pirulitos, balas, bolos e bombons; fazer dois brinquedos virarem vinte pela mágica da multiplicação.

Sensacional! Somar, ganhar, aumentar, acrescentar… quem é que não quer? A menos que sejam ganhos indesejados, como dívidas ou pendências em geral.

Nossa mente, alma e coração parecem ter sido esculpidos para os ganhos. Ainda que muitas vezes exageremos na aquisição de coisas e até na inclusão de pessoas em nossas vidas, preferimos acumular, guardar, esquecer o que temos… a ter de lidar com a falta ou com a perda.

Subtrair é extremamente custoso para nós. Abrir mão, deixar ir; perder, olhar para o que falta, quanto falta. Tirar, entrar em contato com a ausência daquilo ou daqueles que já não temos mais. Até os mais singelos problemas de matemática das séries iniciais são desafiadores para os pequenos; envolvem balões que estouraram; sorvetes que derreteram; frutas que estragaram; brinquedos que quebraram… Pensa bem!

E a divisão… Ahhhhh a divisão envolve o mais complexo dos aprendizados. E a matemática da escola não nos prepara para as divisões reais da vida. Lá na sala de aula, aprendemos a dividir em partes iguais; e na vida, nem sempre isso é possível. Em verdade, é dificílimo! Nossas emoções não são divisíveis igualmente, nossos recursos materiais, tampouco. Vamos repartindo afetos e recursos conforme vamos dando conta.

A vida é muito mais história, poesia e filosofia do que matemática. A gente aguenta os revezes, graças às nossas memórias felizes; é a nossa história de vida que nos prepara para o que ainda não veio, as batalhas que não lutamos, as graças que não recebemos, as perdas que nem imaginamos sofrer.

É a nossa capacidade de pensar além da dor, de sublimar a vitória, que torna minimamente possível seguir andando e insistindo, apesar do entorpecimento momentâneo do ganho e o efeito devastador de ter arrebatado de nossas mãos aquilo ou aqueles que nos são caros, valiosos, indispensáveis, insubstituíveis.

E se não fosse a poesia, a plasticidade da alma, que torna possível converter agonia em aprendizado; não fosse a possibilidade de transmutar em novas belezas o que nos destruiu por dentro, não haveria esperança para nós.

Perder um filho, é ter de aceitar o fato irreversível de ter de continuar existindo nesse mundo com um pedaço do coração arrancado do peito. Nenhuma mãe, nem as mais doces e amorosas, são capazes de compreender imediatamente essa clara injustiça, a subtração dolorosa, a divisão do coração em milhões de pedaços incongruentes.

Submergir da experiência avassaladora que é ver um filho partir para sempre, faz a gente pensar em propósitos maiores, faz a gente ter de acreditar em propósitos maiores. A saudade de um filho que partiu definitivamente, obriga a gente a aprender a viver sem aquele cheirinho único no travesseiro, sem o barulhinho inconfundível da respiração cadenciada no quarto ao lado, sem milhares de lembranças vividas, palavras proferidas, abraços partilhados, beijinhos melecados, baguncinhas boas, a vida repartida e multiplicada ao mesmo tempo em um outro ser fora da gente.

A redenção, a cura, o apaziguamento dessa dor, não é tempo que vai trazer. O tempo, sozinho, não tem esse poder. Sobreviver a tão violenta perda é desafiar a lógica, é subverter a ordem natural da vida. E a cada mínimo pulsar do peito, compreender que se ainda estamos por aqui, há de haver algo realmente grandioso esperando por ser acolhido em nosso peito tão ferido. A cura, reside na teimosia de continuar respirando e aspirando para esse mundo uma realidade menos sofrida. Quem sabe não seja a nossa missão nesse planeta redirecionar esse amor infinito, tão bonito e incondicional a outros filhos, pequenos ou grandes, humanos ou não, filhos queridos que necessitam desse nosso afeto paralisado no peito. Olhar em volta, olhar para dentro e buscar uma forma bonita de encontrar um porquê para sair do caos da dor. Há de haver por aí, alguém que precise desse nosso amor.

***

Imagem de capa meramente ilustrativa: cena do filme “A Liberdade é Azul”.

Ana Macarini

"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

Recent Posts

Ela ia para a escola sem comer; hoje, é uma estrela com fortuna de US$ 400 milhões

Poucos imaginam o que essa cantora enfrentou antes de acumular US$ 400 milhões...

14 horas ago

Uma única folha desta planta pode valer ouro quando você sabe identificar e usar direito

Uma única folha desta planta vale ouro, contanto que você pare de fervê-la do jeito…

15 horas ago

‘Morri e voltei’: a jovem que sofreu AVC, mas foi diagnosticada com enxaqueca

Ela sofreu um AVC e passou mais de 600 dias acreditando estar com uma doença…

15 horas ago

Ex-modelo que brilhou nos anos 2000 reaparece irreconhecível revirando lixo nas ruas

Ex-modelo e atriz reaparece irreconhecível morando nas ruas de Los Angeles, após ter um colapso…

21 horas ago

Há quase 50 anos essa música explodia nas rádios, mas de 1980 pra cá quase ninguém lembra… Você reconhece?

Você certamente já ouviu essa música na rádio, mas aposto que não lembra o fim…

21 horas ago

Médicos removeram 300 pedras nos rins de uma jovem de 20 anos causado por um hábito ridículo

O número assusta, mas o detalhe mais importante está no que vinha acontecendo antes dela…

2 dias ago