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Amor, interesse e jogo psicológico: o filme da Netflix que incomoda sem pedir licença — e acerta onde dói

Tem comédia romântica que nasce de flores e bilhetinhos. O Amor Custa Caro (2003) nasce de outra coisa: contrato, estratégia e gente tentando ganhar no grito — com sorriso no rosto e faca escondida na manga.

E é exatamente aí que o filme fisga: ele trata romance como um jogo de negociação, onde “carinho” e “cláusula” costumam sentar na mesma mesa.

A história coloca Miles Massey (George Clooney) como advogado de divórcios famoso em Los Angeles, daqueles que parecem sempre dois passos à frente, inclusive quando estão entediados com o próprio sucesso.

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Do outro lado entra Marilyn Rexroth (Catherine Zeta-Jones), especialista em transformar casamento em plano de enriquecimento — e, quando os dois se cruzam, vira uma queda de braço bem educada, só que cheia de rasteira.

O tempero “Coen” aqui funciona de um jeito curioso. Joel e Ethan Coen dirigem e apostam num ritmo que lembra as comédias maldosas de salão: frases afiadas, personagens secundários que entram como uma bomba cômica e uma sucessão de situações onde todo mundo quer estar por cima, custe o que custar.

O filme nunca finge ser “romance fofo”: ele prefere te fazer rir da vaidade dos dois e, logo depois, te deixar meio desconfortável com o quão calculado tudo pode ficar quando dinheiro vira bússola.

O Clooney acerta em cheio no tipo “impecável e cínico”, mas com rachaduras. Ele vende bem a ideia do cara que domina o tribunal e, ainda assim, se enrola quando a disputa vira pessoal. Zeta-Jones, por sua vez, faz a Marilyn com uma segurança quase insolente — e o filme depende dessa energia, porque sem ela a trama viraria só “golpista vs. advogado”.

Aqui, ela é também uma leitora de ambiente: entende a sala, entende o desejo alheio, entende o timing.

Quem dá muita graça ao conjunto é o elenco de apoio: Geoffrey Rush aparece como um “guru do divórcio” performático, quase uma caricatura de autoajuda jurídica; Billy Bob Thornton entra com um caos humano que ajuda o filme a acelerar quando precisa.

Essa galeria deixa claro o que o roteiro quer provocar: num mundo onde separação virou indústria, todo mundo vende alguma certeza — e quase sempre é conversa bonita embalando interesse próprio.

Em termos de tom, é uma comédia que brinca com o cinismo e com a química do casal sem pedir desculpas. A própria recepção crítica costuma destacar que, mesmo sendo mais “acessível” do que outras obras dos Coen, ainda tem aquelas esquisitices inteligentes e o “calor” de estrela antiga entre Clooney e Zeta-Jones.

E isso explica por que o filme funciona tão bem hoje no streaming: é leve na superfície, venenoso no subtexto e rápido o suficiente pra você perceber que riu de algo meio torto — e rir de novo.

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Fonte: Blog da Isabela Boscov

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Gabriel Pietro

Redator com mais de uma década de experiência.

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