Marcel Camargo

Algumas páginas a gente não vira, a gente rasga

É inegável o peso que um passado mal resolvido pode ter em nossas vidas. Muitas vezes, fica difícil apressar os passos em direção ao futuro desejado, carregando pendências dentro de si. É preciso colocar um ponto final em tudo o que não tem mais jeito. Se necessário, é preciso apagar aquilo de uma vez por todas.

Enquanto vivermos, faremos escolhas equivocadas, amaremos a pessoa errada, confiaremos em quem não deveríamos, falaremos o que era para ser guardado. É assim que a gente cresce, aprende e se torna menos suscetível de cometer as mesmas burradas. A não ser que a pessoa se negue a repensar a própria vida, julgando-se a dona da verdade; do contrário, os erros podem ser benéficos, apontando-nos quais caminhos evitar e nunca mais seguir.

Ninguém consegue caminhar com segurança, enquanto ainda guarda cicatrizes emocionais, enquanto seu coração está preenchido com inseguranças e pesos mal resolvidos. Recomeçar implica libertar-se das amarras que impediam um olhar esperançoso diante do horizonte lá na frente, diante do amanhã. Pendências são como nós, que diminuem a fé, atravancando todas as possibilidades que se encontram disponíveis diariamente a cada um de nós.

Na verdade, nem tudo o que ficou lá atrás deve ser revisitado. Embora digam que o passado é lugar de referência e não de residência, algumas pessoas e certos acontecimentos devem mesmo é ser enterrados, esquecidos, deletados de nossa memória, de nossa vida. Alguns erros a gente lembra para não repeti-los, mas há passados que não trarão absolutamente nada de bom ao serem trazidos de volta. Vale mesmo é rasgar essas páginas e, se possível, queimá-las.

Como se vê, o passado pode, sim, muitas vezes, servir-nos de lição, como parâmetro de comportamentos que não devemos repetir. Refletir sobre o que estamos fazendo de nossas vidas é extremamente necessário, porém, existem passagens tão doloridas e traumáticas, que devem permanecer bem longe de nossa vida, de nossos pensamentos, de nossas lembranças. É assim que a dor cicatriza de vez.

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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