Celebridades

A atriz que brilhou na TV, enfrentou uma dor devastadora e foi esquecida por Hollywood

Uma foto de registro policial é uma máquina cruel de encurtar vidas. Ela pega uma pessoa inteira — infância, trabalho, perdas, recaídas, tentativas de recomeço — e reduz tudo a um rosto cansado, mal iluminado, pronto para circular como julgamento público.

Foi mais ou menos isso que aconteceu com Lisa Robin Kelly, atriz lembrada por interpretar Laurie Forman em That ’70s Show. Para muita gente, ela virou “a atriz da foto”. Mas antes daquela imagem havia uma artista com presença forte em cena, timing cômico afiado e uma vida pessoal atravessada por uma dor que ela mesma apontou como ponto de ruptura: a perda de um bebê.

Lisa nasceu em 1970 e, antes de ganhar projeção em That ’70s Show, passou por produções conhecidas da TV americana, incluindo participações em séries como Married… with Children, Murphy Brown e The X-Files.

No cinema, também apareceu em filmes como Jawbreaker e Payback. Mas foi como Laurie, a irmã mais velha de Eric Forman, que ela se tornou reconhecida pelo grande público. A personagem tinha humor ácido, presença provocadora e funcionava como contraponto perfeito ao jeito mais inseguro do irmão vivido por Topher Grace.

O brilho de Lisa na série era específico: ela sabia entrar em cena como quem mudava a temperatura da sala. Laurie podia ser debochada, manipuladora, inconveniente, mas Lisa fazia tudo caber no ritmo da sitcom.

Em uma produção cheia de atores que depois se tornariam nomes enormes, como Ashton Kutcher e Mila Kunis, ela também tinha seu espaço. Só que sua trajetória dentro da série começou a desandar quando a vida fora do set ficou pesada demais.

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Em entrevista à ABC News, Lisa falou de maneira direta sobre a tragédia que marcou esse período. Ela disse que havia perdido um bebê e que, depois disso, “perdeu tudo” e passou a abusar do álcool. A própria atriz também reconheceu que, durante That ’70s Show, tinha um problema com bebida e “correu” da situação.

Esse detalhe muda bastante a forma como a história costuma ser contada. É fácil transformar Lisa em uma sucessão de manchetes: prisão, alcoolismo, substituição, morte precoce. Difícil é lembrar que o abuso de álcool apareceu, segundo ela, ligado a um trauma profundo.

Um aborto espontâneo pode quebrar a rotina emocional de uma mulher de um modo que quem vê de fora raramente entende. Não dá para reduzir uma dependência química a um único episódio, mas também seria desumano ignorar o marco que a própria Lisa escolheu revelar.

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A saída de That ’70s Show acabou sendo tratada, na prática, como um problema de continuidade. Lisa deixou a série em 2003, quando a produção ainda estava no auge, voltou para alguns episódios no fim da quinta temporada e depois foi substituída por Christina Moore na sexta. A personagem continuou existindo; a atriz, não.

A televisão costuma ser impiedosa com quem falha em público. Quando um ator adoece, atrasa, falta ou perde estabilidade, a máquina segue. Troca-se o rosto, ajusta-se o roteiro, preserva-se a grade.

No caso de Lisa, o que chegou ao público foi isso: ela saiu, voltou brevemente, foi trocada. O que não aparece com a mesma força é qualquer sinal público de uma estrutura de amparo proporcional ao tamanho do colapso que ela dizia estar vivendo.

Depois da série, Lisa quase sumiu das telas. O trabalho ficou raro, enquanto os problemas pessoais passaram a receber mais atenção do que qualquer tentativa de recuperação. Em 2010, ela se declarou culpada por dirigir sob influência de álcool na Carolina do Norte. Em 2012, foi presa após uma acusação de violência doméstica; na entrevista à ABC, negou ter agredido o ex-namorado e disse que ela teria sido a pessoa machucada.

A foto de registro policial de 2012 virou combustível para comentários cruéis. A própria cobertura da época destacava o contraste entre a atriz lembrada como “loira bonita” da TV e a imagem abatida que circulava na internet. A conversa pública se prendeu ao rosto, à aparência, ao choque visual. Pouca gente parecia interessada em perguntar o que havia acontecido entre a jovem atriz de uma sitcom de sucesso e aquela mulher exausta diante de uma câmera policial.

Ainda em 2012, Lisa e o marido, Robert Joseph Gilliam, foram presos na Carolina do Norte após uma ocorrência doméstica em Mooresville. Segundo a WBTV, ela foi acusada de agressão simples, enquanto ele foi acusado de agressão contra mulher. Ambos receberam fiança. A relação também terminaria em processo de divórcio, citado pela imprensa no ano seguinte.

Em 2013, Lisa tentou buscar ajuda de forma mais direta. Ela se internou voluntariamente em uma clínica de reabilitação na Califórnia. Seu agente, Craig Wyckoff, afirmou ao Los Angeles Times que havia falado com ela pouco antes da morte e que Lisa parecia esperançosa, confiante e pronta para deixar aquela fase para trás. Ela morreu aos 43 anos, enquanto estava na clínica.

Meses depois, o legista do Condado de Los Angeles classificou a morte como acidental, causada por intoxicação por múltiplas drogas. As substâncias encontradas no corpo não foram divulgadas naquele primeiro relatório citado pela CBS.

A vida de Lisa Robin Kelly ficou marcada por escolhas ruins, recaídas, prisões e episódios difíceis. Mas uma matéria honesta precisa olhar também para o outro lado: a dor que ela carregava, a perda gestacional que ela mesma relacionou ao abuso de álcool, a rapidez com que a indústria resolveu sua ausência com uma substituição e o modo como parte da mídia preferiu explorar a imagem de sua decadência em vez de tratar sua história com algum cuidado.

Lisa tinha talento. Tinha presença. Tinha uma carreira que poderia ter seguido por muitos caminhos. O que restou, por tempo demais, foi uma narrativa preguiçosa sobre “a atriz problemática”. A história completa é bem mais incômoda: uma mulher em sofrimento, uma indústria pouco paciente com fragilidade e uma imprensa que, muitas vezes, transformou dor em espetáculo.

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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