Marcel Camargo

Viver é um exercício de desapego

A necessidade de praticarmos o desapego é uma daquelas coisas que todos sabemos ser preciso colocar em prática, mas pouco tentamos ou nem ousamos tentá-lo. Demoramos tanto a obter bens, a conquistar as pessoas, que acabamos nos prendendo emocionalmente a tudo o que pensamos ser nosso. Vã ilusão essa que nutrimos, a respeito de nosso suposto poder sobre o que está ao nosso redor. Nada é, como diz Caye, tudo está.

Existem pessoas que se prendem ao cargo que ocupam, sentindo-se proprietários de poder sobre aqueles que qualificam como subalternos. Do alto de sua pretensa superioridade, mandam e desmandam, ditando ordens, desmerecendo o trabalho do outro, numa atitude autoritária que denota tão somente fraqueza de caráter e insegurança emocional, pois quem é capaz e sabe disso lidera de forma natural e saudável.

Há aqueles que se acham donos da pessoa com quem mantêm um relacionamento amoroso, a ponto de controlar-lhe os passos exageradamente, cerceando-lhe a liberdade de escolha, o respirar pessoal, descaracterizando o companheiro em tudo o que é próprio de sua humanidade, em tudo o que na verdade deveriam valorizar. Não conseguem amar de verdade, pois nada enxergam além do próprio umbigo, perdendo a chance da entrega completa e visceral que renova a alma.

Certas pessoas apegam-se aos bens materiais de maneira doentia, tornando-se mesquinhas, egoístas, de forma a não tolerarem ver alguém utilizando algo que é seu. Possuem casas na praia inabitadas, mesmo no verão, livros empoeirados e nunca lidos, carros impecáveis que não levam ninguém a lugar algum, móveis suntuosos cobertos por lençóis, longe da poeira e do calor humano. São tão pobres, que a única coisa que têm é dinheiro.

Outros se tornam vítimas da própria ignorância, enclausurados que se encontram nas escuridões de ideias e de pontos de vista rançosos, que lhes impedem o avançar natural em meio ao novo que se descortina à nossa frente diariamente, ininterruptamente. Não mudam, não saem do lugar, não se abrem ao diálogo, não se despem de preconceitos e de julgamentos pré-concebidos e excludentes. Perdem toda e qualquer oportunidade de ampliar o espectro de suas visões, diminuindo as chances de assim encontrarem a felicidade.

Há quem viva no passado, negando-se a experenciar o presente e perdendo oportunidades de se preparar com segurança para o amanhã. Agarram-se ao tempo que já foi, à infância que acabou, ao amor que já não é, à juventude que se perdeu, ao amigo que saiu de suas vidas, sem ao menos se permitirem a descoberta do novo que se encontra bem ali ao lado, estendendo-lhes as mãos em vão, todos os dias.

Valorizarmos nossas conquistas e as pessoas que se encontram junto de nós não significa, como muitos tendem a pensar, manter tudo isso numa redoma intocável, na ânsia de preservarmos o que pensamos ser nosso de maneira incólume à passagem do tempo, ao curso da vida. Não controlaremos as ocorrências a que estamos sujeitos, tampouco o que acontecerá com as pessoas e os bens à nossa volta, mesmo que queiramos. É utopia.

Porque a vida tem que seguir, o tempo tem de passar, as coisas têm de acabar, as pessoas têm de partir, assim como nós também um dia partiremos, deixando para trás tudo o que tanto prezávamos. Tudo passa, tudo começa e termina, menos o amor – o amor eterniza tudo o que em nós for humano, for verdadeiro, for invisível aos olhos, porém essencial à beleza mágica de que se constitui o ritmo da vida.

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

Recent Posts

Segurança digital nas compras pela internet

Fazer compras pela internet se tornou parte da rotina de milhões de brasileiros, mas essa…

3 dias ago

O QUE A MP Nº 1.394 MUDOU PARA O PIX, O CARTÃO E O SALDO DE QUEM APOSTAVA

Entre aspas, o texto da Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026,…

5 dias ago

Há um rosto escondido no desenho do moinho e ele NÃO aparece onde você olha primeiro

Uma antiga construção de pedra, uma roda de moinho movimentada pela água e um riacho…

2 semanas ago

Quantos cães aparecem nesta imagem? Sua resposta corresponde a uma faixa de idade mental neste teste

Uma imagem aparentemente simples, formada por silhuetas de cães em preto e branco, está desafiando…

2 semanas ago

Nem piolho, nem ferida: o pequeno visitante que pode aparecer na cabeça das crianças (e o pais precisam saber!)

Ao separar os cabelos de uma criança, encontrar um pequeno animal preso ao couro cabeludo…

2 semanas ago

Duas pessoas atravessam o rio neste desafio visual, mas há um terceiro personagem difícil de notar

Uma ilustração em preto e branco, aparentemente simples, esconde um detalhe que pode passar despercebido…

2 semanas ago