Elisângela Siqueira

Às vezes, o trabalho do psicólogo exige mais amor do que competência técnica.

Com dezessete anos de carreira, tive a oportunidade de trabalhar em dezenas de lugares. Fui funcionária pública por 10 anos e muitos destes anos trabalhei em alguns CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).

Nesse Caps II, havia um livro onde o plantonista que realizava os acolhimentos escrevia resumidamente cada caso atendido. E foi desse jeito, como o título, que o atendimento que realizei foi transcrito no livro de acolhimento.

Para quem não conhece os Caps, são unidades de atendimento intensivo e diário aos portadores de sofrimento psíquico grave, constituindo uma alternativa ao modelo centrado no hospital psiquiátrico e permitem que os usuários permaneçam junto às suas famílias e comunidades.

O Caps tem, como finalidade, a integralidade no tratamento de pessoas que sofrem com transtornos mentais: psicoses, neuroses graves e outros quadros cuja severidade e/ou persistência justifiquem sua permanência num dispositivo de cuidado intensivo, comunitário, personalizado e que objetiva a inserção social.

Às segundas-feiras de manhã ocorria meu plantão no acolhimento, ou seja, eu tinha a função de receber pacientes novos, que vinham encaminhados de outros serviços de saúde. Normalmente, eram muitas as pessoas que procuravam o serviço nesse dia. E, como de costume, havia uma fila de espera.

O primeiro a ser atendido era o seu Antônio, a quem recebi na sala apertada e ele logo se ajeitou. Diz que estava esperando desde às 5:30 da manhã, embora já tenha visto, na placa, algumas vezes, que o Caps só abria às 7 horas. Morava ali perto e tinha muita urgência desde sábado.

Segui o protocolo do acolhimento, anotei nome completo, endereço e todos os documentos. Desenhei o genetograma e perguntei sobre o encaminhamento. Disse que veio encaminhado por ele mesmo por ter um problema muito sério: urgência de amor.

Transcrevo o acolhimento para contextualizar melhor:

Eu: Seu Antônio, como posso ajudá-lo? Vejo que o senhor não veio encaminhado por outro serviço de saúde.
Antônio: Minha filha, eu tenho urgência de atendimento. Vou te explicar. Eu sou viúvo há quase 25 anos. Na época do falecimento da minha esposa, meus filhos tinham 7 e 5 anos. Tinha que trabalhar muito. Meus filhos foram cuidados pela minha mãe. Nunca namorei. Minha vida sempre foi trabalhar e cuidar dos meus filhos. Hoje eles são formados em “faculdade”. Trabalham e tenho 3 netos. Sábado, eu conheci uma linda mulher. Tive coragem de convidá-la para passear. Ela aceitou. Combinamos às 8 horas da noite, mas eu cheguei perto da casa dela e não tive coragem de apertar a campainha.
Fui embora. Não tive coragem de ligar para ela e também não me telefonou mais. Eu fiz errado, não agi como homem.
Eu: Seu Antônio, aqui nós atendemos pessoas com doenças mentais graves, não conseguimos atender pessoas com problemas amorosos. Posso encaminhar o senhor para uma unidade de saúde? Penso que será importante pensar nessa questão afetiva. (Eu olhava a fila de pessoas para serem acolhidas aumentar cada vez mais)
Antônio: Minha filha, eu não posso esperar. Faz mais de 20 anos que espero alguém. E você não quer me ajudar?
Eu: Mas como posso ajudá-lo?
Antônio: Eu só quero me desculpar com a dama. Você pode escrever um bilhete para mim? Eu não sei escrever.

Depois de pensar e repensar meu papel de psicóloga no serviço, também pensei no meu papel social.

Eu: Posso sim! O quê o senhor quer que eu escreva?
Antônio: Escreve assim: Matilde, fui até a sua casa, mas não consegui te chamar. Peço perdão. Quero uma nova chance para levar você para comer um lanche.

Eu fiz o bilhete como ele pediu. Escrevi numa simples folha sulfite.

Antônio pegou o papel escrito como se fosse um bilhete premiado da loteria. E, saindo, disse: “vou passar na floricultura e comprar rosas vermelhas. Quero entregar pessoalmente.” Você acha que ela vai me perdoar?
Eu: Não sei, mas, no lugar dela, eu perdoaria você.

Seu Antônio se despediu satisfeito com o atendimento e feliz da vida. Enfim, esse foi o único atendimento da minha vida em que a conduta foi um “bilhete” de amor. Às vezes, o trabalho do psicólogo exige mais amor do que competência técnica. Não sei o que aconteceu entre ele e a Matilde. Mas desejo que estejam bem.

Imagem de capa: Pressmaster/shutterstock

Elisangela Siqueira

Psicóloga com especialização em Psiquiatria e Psicologia da Infância e da Adolescência e em Psicoterapia Psicanalítica Breve. Mais de 10 anos de experiência. Atendimentos presenciais e online.

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