Túneis existenciais

Sem pressão não há diamantes
Mary Case

Há certos aromas de infância, inesquecíveis… Assim como há certas sensações que permanecem sempre, muito fiéis.

Lembro-me do friozinho gostoso na barriga quando minha tia passava com seu jipe, em alta velocidade, pela depressão da Avenida Benjamin Constant. UAU!

E daquela expectativa maravilhosa quando visualizávamos os túneis da Serra do Mar, rumo à cidade de Santos. Meu pai dizia: “Abaixem as cabeças” e, meus irmãos e eu obedecíamos mais do que depressa.

Hoje, trago na memória essa vivência de infância e quando passo por túneis, normalmente, sinto tranquilidade.

Agora me pergunto: Por que nos sentimos tão seguros e confiantes com as obras humanas e nos desesperamos com as obras de Deus?

Sim! Há momentos em que entramos em túneis existenciais, onde tudo fica muito escuro e ameaçador. Nossos faróis de percepção e discernimento, nossas emoções equilibradas e saudáveis enfraquecem e, em muitos momentos, desacreditamos de que chegaremos a apreciar o Sol novamente.

Parece até que a força de atração desses túneis não é para frente e sim, para o fundo, cada vez mais fundo… Cada vez mais em contato com rochas duras de se quebrar.

Entretanto, assim como nos túneis construídos pelos homens há luzes em suas extremidades para diminuir o breu total, assim também ocorre quando passamos pelos túneis existenciais. Amigos, familiares e profissionais nos auxiliam muito, no entanto, temos ciência de que são nossas mãos e nossas habilidades pessoais que nos levarão, mesmo enfraquecidos, a fazer a travessia.

São momentos difíceis, mas propícios para conhecer subterrâneos interiores, entrar em contato com as sombras, diminuir a velocidade das ações e colocar luz baixa para um melhor foco nas rochas psíquicas que deverão ser trincadas ou quebradas para dar espaço às novas aberturas e nascimento de uma nova subjetividade.

Não há como evitar esses túneis existenciais, todos passam por eles, em algum momento da vida. Alguns curtos, outros mais compridos e difíceis. São as já conhecidas “crises previsíveis da vida”.

Ganhamos quando, na chegada, realizamos uma metamorfose do Ser, quando conseguimos entender que tudo foi graça e não maldição, quando saímos mais fortes e mais próximos da luz Divina.

***

Photo by Kyle Head on Unsplash

Eliete Cascaldi

Psicóloga , escritora e avó apaixonada pelo seu neto e pela vida. Autora do livro "Varal de sonhos" e feliz demais com os novos horizontes literários que se abrem.

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