“Leva-se tempo para ser jovem”, disse Picasso.

Bem antes de ler essa frase, por volta dos vintes anos, eu já sentia a proximidade do fantasma. Era uma presença melancólica. Não sei quando se juntou a mim, mas penso ter sido ainda muito cedo, assim que tomei consciência da natureza perecível das coisas, talvez.

Bem menina, ainda, conheci a falta precoce daquilo que lá na frente deixaria de existir. Eu não sabia o que fazer com a impermanência. A cada final de tarde, pensava, a vida seria cheia de crepúsculos tristes, a evocar com pontualidade ausências e perdas.

Foi demorado o trânsito por esse corredor da vida. Ele era escuro, labiríntico, cheio de charadas. Mas foi a lanterna da experiência iluminar a passagem, e o fantasma mostrou a face, disse seu nome.

Era o medo.

Medo do desconhecido, do erro, do fracasso, do arrependimento, dos arrastões do tempo – o tempo… Eu sabia o que ele costumava subtrair, mas não o que ofereceria em troca.

Medo, enfim, do ponto invisível, pouco depois do dobrar da curva.

A maternidade bloqueou especulações sobre o destino. A vida se tornou real, imediata, urgente. E mais luminosa, também. Era o fim do túnel, mas ainda sentia a presença do fantasma.

Finalmente, a curva.

Olhei para trás, vi a estrada. Enxerguei as inúmeras vezes em que eu própria havia me acomodado às mais inesperadas mutilações, sobrevivido às mudanças mais bruscas, encontrado consolo e desafio em realidades inóspitas, colhido ternura em solos hostis.

Vi o passar dos anos mitigando a beleza, enfraquecendo o corpo. Não me abalei muito, porque o vi também atenuando apegos, redimindo vaidades, ensinando o milagre da resiliência, que fortalece o espírito. Sofre, sim, quem envelhece sem amadurecer. O pôr do sol ficou mais alegre quando entendi que o ser humano se reinventa e recompõe.

Pouco a pouco, vou incorporando ao dia-a-dia, um gesto que tentarei reproduzir para sempre. É o descarte de itens supérfluos, objetos imateriais acumulados ao longo do trajeto. Diariamente líbero espaços na alma ao me desfazer de remorsos, culpas, expectativas, problemas imaginários.

Continuar a viagem! Com o percurso mais leve, claro e cheio de sentido.

O mundo que ressurge depois da curva é tão cheio de ofertas! Que surpresa perceber que nada me traiu ou abandonou: vida, chão, montanha, espuma do mar, gente, paisagem, céu… E sentimento. Está tudo lá, eu vejo e sinto. “Obrigado, coisas fiéis!”. Obrigada, Drummond!

Estou na metade do caminho. Nunca mais pressenti o fantasma. E tenho o coração em festa de quem acolhe nos braços um recém- nascido.

Bem-vinda, juventude!.

Ana Flavia Velloso

Formada em Direito pela Universidade de Brasília, e mestre pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Advogada, é professora de Direito Internacional Público. É muito feliz na escolha profissional que fez, mas flerta desde sempre com as letras.

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Ana Flavia Velloso

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