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Ridículo mesmo é nunca ter escrito uma carta de amor.

Eu queria escrever uma coisa a você. Assim, sem mais, rabiscada no verso de um papel de pão, de uma receita médica, de um folheto publicitário, queria redigir a você uma cartinha leve como a pena e o riso e a borboleta. Breve como a vida e o tempo. Eu queria escrever uma coisa dessas e entregar a você.

Em mãos, deixaria aos seus cuidados um minitratado sobre o céu e as nuvens, o amor e a utopia, a dor e a esperança, a vida e o sonho, as políticas públicas e o serviço de manobristas, nós e os outros.

E você, deitando os olhos sobre as sílabas, rolando a vista nua pelas frases, vestiria uma vontade nova e esqueceria por um instante das pressões de cada dia, as cobranças tantas, o dinheiro pouco, os medos generosos e os ímpetos mesquinhos.

Queria escrever a você um ensaio simples de provas irrefutáveis para a máxima segundo a qual “da vida nada se leva”. E que a leitura lhe fizesse desejar o óbvio: que entre tudo o que haveremos de deixar neste mundo quando a hora nos chegar, prevaleçam as ternuras, os amigos e as lembranças de amor.

Para quando você se sentir miserável e só, queria escrever um poeminha de riso e festa, passá-lo por debaixo da porta e encontrar a sua dor como remédio santo. Um emplastro, elixir, unguento ou coisa que o valha e alivie sua angústia.

Queria, sim. Eu queria tanto escrever a você o termo de posse de uma fazenda centenária onde viveríamos entre os nossos, escrevendo e pintando e trabalhando na terra e cuidando dos bichos. E estaríamos tão misturados ao fluxo do dia que quando algum animal local nos notasse ali murmuraria apenas, em amorosa e profunda prosopopeia: “lá vão aqueles dois”. E ele estaria mais do que certo em sua razão de bicho. Nós vamos mesmo. Nós vamos sempre.

Juro, eu juro que queria escrever um romance fininho, desses que nem param em pé, para você se deitar e ler na cama, antes de dormir, como porta de entrada para um sonho bom. E que ao acordar você encontre restabelecidas sua fé vigorosa na vida e sua disposição implacável para o trabalho.

Eu queria, Deus sabe o quanto eu queria escrever a você um bilhete de colar na porta da geladeira ou guardar na bolsa, no bolso, marcando no papel infinitas dobras, para ler e reler quantas vezes a paciência deixar e a saúde carecer. E que de tanto abrir e fechar, o papel com o tempo e o suor das mãos se deixe esmorecer como animal que morre de velho.

Pois quando a última dobra puída cair exausta, você vai me estender a mão, me puxar para perto e me dizer que entendeu o recado.

Então nós iríamos voar daqui. Fazer as malas, pegar duas coisas, três, meia dúzia, e seguir para longe. Romper a camada de ozônio, trombar nas estrelas e virar luz.

Eu juro que queria escrever tudo isso a você. Ah… como eu queria.

André J. Gomes

Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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