A revolução contida na pergunta

Me pego rindo quando me lembro da época em que meu irmão tinha seus 6/7 anos e passava o dia perguntando sobre tudo. Tudo, tudo, tudo. Eu, no auge dos meus 11 anos já estava com minha paciência “esgotada”. Reclamava. Não aguentava.

Uma categoria de perguntas que ele fazia me incomodava especificamente: a categoria dos “E se…?”. Vou exemplificar. “E se você fosse morrer? Preferiria morrer de calor ou de frio?”. Aplique esse esquema de pergunta a todos os assuntos possíveis e terá uma amostra do que Plínio Filho nos fazia passar.

O tempo correu, Plínio diminuiu sua cota de perguntas diárias, mas uns aninhos pra frente, convivi com outro garoto que perguntava muito o tal do “E se…”. Este meu colega, jogava esse tipo de pergunta especialmente durante as aulas de História. “Professor, e se a Alemanha tivesse ganhado a II Guerra Mundial?”. Meu professor, como eu, quando pequena, se irritava. “Na História não existe esse tipo de pergunta, fulano”, disse ele secamente uma vez, castrando toda a disposição que fulaninho tinha para fazer perguntas durante suas aulas.

É interessante perceber o quanto o automatismo da modernidade nos leva a nos incomodar com situações que exigem que pensemos fora da caixa. Hoje olho para trás e vejo o quanto nós mesmos contribuímos diariamente para repressão e bloqueio da curiosidade e do poder de criação de nossas crianças.

O “e se…?” nos perturba justamente por não estarmos “treinados” para ele. Ele nos coloca em contato com o desconhecido, nos coloca numa posição de “não-saber”, quando estamos sendo avisados cotidianamente que TEMOS que saber, porque simplesmente não podemos errar, nas questões do vestibular, no trabalho, nos relacionamentos, na vida. Será?

Não, não. Isso não é uma apologia ao erro. Mas o fato do erro ter uma conotação tão negativa em nossa sociedade nos leva a “jogar seguro” sempre, a não arriscar e consequentemente a não criar. É uma sociedade sem graça essa… Condenada ao acerto, a mesmice, à falta de criatividade e imaginação.

É num mundo como este que queremos mesmo viver?

A verdade é que hoje vejo o pessoal do “e se…?”, vulgo meu irmão e o fulano da sala, como revolucionários. A dúvida é criativa, é imaginativa, ela nos tira dessa repetição chata a qual estamos habituados. Sim, nesse sentido, toda criança tem um quê de revolução.

Nesse sentido, todos temos, adormecidos em nós um tanto de “e se…?”, não é? O que nos resta, no primeiro caso, é não reprimirmos esse tais “e se…?”, no segundo, a solução é reaviva-los.

Pois é. Em tempos de mentes fechadas e disciplinadas, faz-se necessário a subversão de abrirmos mais e mais cabecinhas. Isso é, afinal, criar a possibilidade de um mundo diferente, melhor talvez, do que o que vivemos hoje.

Imagem de capa: Karramba Production/shutterstock

Mísia Morais

Paraibana (Campinense) estudante de Psicologia que tem a cabeça nas nuvens, pés no chão e um fraco por causas perdidas.

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