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Quando o amor chegar

Por muito tempo imaginei como seria o dia em que me apaixonaria. Cabelos ao vento, câmera lenta, música linda tocando, eu distraído, impecavelmente bem vestido, observo uma criança perdendo seu balão para o ar. É neste momento em que nos trombamos, eu peço desculpas, ele pede perdão e então a mágica acontece: nossos olhos encontram-se, um inunda o outro de sua existência, estamos apaixonados. Tudo perfeito, mas não é bem assim que acontece.

Na maioria das vezes, encontramos pessoas especiais em lugares terrivelmente triviais. Já me apaixonei numa fila, já me encantei em churrascos de domingo, já me entreguei aos olhos do amor em barzinhos de esquina, nunca em um campo florido, nunca numa ponte sobre o rio Sena.

E eram sempre as piores trilhas. Dava vontade de engatar a ré e adiar a felicidade só para não ter aquela música da reboladinha como nosso tema de primeiro encontro. E conheço gente que faz mesmo isso: anda com a música perfeita no bolso e dá play ao primeiro olhar. Obviamente isso assusta um pouco. A perfeição costuma mesmo assustar.

Esqueça Hollywood, desista de Woody Allen, apague Shakespeare. O amor não vai correr atrás de você no aeroporto, nem te salvar do afogamento, ou te tirar de um prédio em chamas. O amor não frequenta bailes de máscaras, nem salta no teto do trem. O amor gosta de se infiltrar nas pequenas rotinas, é lá que estão as pessoas de verdade.

Ele está ali, repousando naquele amigo tímido, tomando uma cerveja calmamente no posto de gasolina, por trás de um nick engraçado, segurando o elevador pra te esperar, te xingando no trânsito ou te ajudando a carimbar processos.

Quando o amor chegar, você não vai estar com sua melhor roupa, nem em paz com seu cabelo. Você vai estar resfriada, com pressa, sem humor ou dinheiro. Não vai conseguir dizer frases das quais possa se orgulhar e reprisar para os filhos. Você vai estar alta de tequila, dançando sem muita coordenação motora, você vai estar sendo aplaudida no pior karaokê do bairro da Liberdade.

Ao contrário do que você sonhou, quando o amor chegar, não haverá trilha, cenografia, nem iluminação. O amor acha chato o exato, morre de tédio com a perfeição. Quando o amor chegar só serão vocês dois e isso vai bastar para ser incrível. Mergulhe, entregue-se, mesmo que a música ao fundo só peça pra você requebrar até o chão.

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Diego Engenho Novo

Escritor, publicitário e filho da dona Betânia. Criador do blog Palavra Crônica, vive em São Paulo de onde escreve sobre relacionamentos e cotidiano.

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