Quando a gente cansa de doer sozinho é hora de ir embora

Imagem: Maria Mikhailenko/Shutterstock

Um dia, a gente, finalmente, se despede. Descobre que ir embora não é mais difícil do que ficar onde não é bem-vindo. A gente se veste de coragem, cata os verbos soltos pelo chão, as juras de amor e as promessas de ocasião.

Um dia, a gente compreende que, estar por estar onde quer que seja, não leva a lugar nenhum. É como ser qualquer coisa num cenário abandonado. E ser qualquer coisa em qualquer lugar não é ser nada.

Um dia, a gente descobre que se despedir é olhar de relance para tudo o que fica, para todas as coisas nascidas da comunhão de um instante que já foi eterno. Mesmo com essa lembrança, a gente não quer ficar porque não se sente mais em casa. O coração está adormecido e não se emociona com a risada do outro que antes era sol e abrigo.

Um dia, a gente, simplesmente, cansa de tentar arrumar a casa, ajeitar a mobília quebrada. A gente cansa de doer sozinho e sofrer por tantas ausências premeditadas. No fundo, a gente quer que tenha reciprocidade, a gente quer ser lar em beira de estrada, mas também quer ser luz acesa no coração do outro.

A gente não quer ser só passagem, travessia e meio pelo qual alguém faz alguma coisa. A gente quer ser o desfecho daquela história bonita, sonhada com laços e arranjos de fita. Mas, a gente se dá conta que era só rascunho e sombra no caminho do outro. A gente percebe que era só um nome avulso numa folha qualquer, um ancoradouro para abrigar alguns cansaços. Um estepe. Um talvez.

A gente se despede quando percebe que não faz mais sentido ficar se o coração do outro só se ressente, não perdoa e não ama mais. A gente se resgata indo embora sem olhar para trás, sem tentar lembrar que partir pode ser um erro imperdoável, mas que ficar não pode ser mais nada.

Ester Chaves

ESTER CHAVES é uma escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participa de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. Em junho de 2016, teve o conto “Os Voos de Josué” selecionado na 1ª edição do Prêmio VIP de Literatura, da A.R Publisher Editora.

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