Categories: Tais Adbo

Quando é a mãe que chora – uma breve reflexão sobre o primeiro dia de aula

Lancheira na mão, cabelinho penteado para o lado e uma bela cara de sono. É assim que começa nossa jornada pelo aprendizado, e é assim que saímos na calorosa foto do primeiro dia de aula, que toda mãe tira e guarda com orgulho do seu pequeno prodígio.

Tudo muito bonito, até a fatídica hora em que a “tia da escolinha” chega e o momento do adeus é anunciado pela primeira vez. Digo fatídica pensando principalmente na dor da mãe, essa que chora ao deixar seu bebê pela primeira vez na escolinha, e que ao mesmo tempo conta para as amigas com orgulho que o filhote a deixou a foi para os braços da professora com alegria. Dor essa que se tornou naturalizada, vindo muitas vezes acompanhada de uma aceitação do sofrimento, como se sofrer na ausência do filho já fosse algo intrínseco ao fato de ser mãe.

Essa cena bastante comum, que com certeza acontece aos montes por aí, deve ser alvo de, no mínimo, uma breve discussão. Como sabemos (nós todos, no senso comum nosso de cada dia), é fundamental que a criança se separe da mãe e crie laços com outras crianças e aprenda a lidar com a separação da mesma. Até mesmo as mães que choram no adeus sabem disso, mas justificam suas lágrimas pelo “amor incondicional”, e acham que o correto é ser assim; creio que não é bem por aí. Se pensarmos um pouco, o que representa esse choro?

As lágrimas de uma mãe ao deixar o filho na escola podem vir do medo de perde-lo, do medo que ele se machuque ou qualquer coisa ruim aconteça, ou até mesmo pode vir do orgulho de ver que o pequeno está crescendo.

Em alguns casos, pode vir de um sentimento egoísta, de perder algo que lhe pertence. Sim, é bastante comum pensar assim, não é? Toda mãe sente que o filho é “seu”, e que nada pode acontecer com aquele que saiu de seu próprio ventre.

Mas será que o filho pertence mesmo aos seus pais? Afinal, um ser humano pertence a outro ser humano? Encerro com as palavras do poeta libanês Khalil Gibran “Vossos filhos não são vossos filhos.São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma…”

Tais Abdo

Psicóloga clínica especialista em Psicoterapia Psicanalítica Contemporânea e atualmente mestranda na linha de Psicanálise e Civilização. Acredito não no poder de cura da psicologia, mas na capacidade que ela tem de transformar a dor e o sofrimento em compreensão e aprendizado.

Share
Published by
Tais Abdo

Recent Posts

Benefícios do EMDR para pessoas com histórico de trauma

Experiências traumáticas podem continuar afetando uma pessoa muito tempo depois de o acontecimento ter terminado.…

21 horas ago

Esta imagem de 1982 reúne cinco figuras marcantes — uma delas se tornaria famosa no país

Quem aparece nesta foto histórica do Carnaval de 1982? Um dos nomes virou fenômeno nacional

1 semana ago

A estrela de Baywatch que desapareceu da TV e hoje quase não é reconhecida nas ruas

Você reconhece? Yasmine Bleeth está bem diferente mais de 30 anos após Baywatch

1 semana ago

Famosa nos anos 1990, atriz abandonou Hollywood e reapareceu após grande transformação

Poucos reconheceriam essa atriz hoje 😮 Muito admirada (e desejada) anos 1990, ela decidiu abandonar…

1 semana ago

Ela brilhou nos anos 2000, sumiu dos holofotes e reapareceu com o rosto irreconhecível

Ela ficou irreconhecível após plásticas, mas conseguiu recuperar a aparência anos depois

1 semana ago

Minha mãe de 81 anos demitiu a cuidadora e contratou um motoqueiro tatuado — até descobrirmos quem ele era

Minha mãe contratou um motoqueiro tatuado, mas ninguém imaginava a ligação que existia entre eles

1 semana ago