Proibir de falar sobre a morte mata, empatia previne.

Meu nome é Alan.

Tenho 24 anos. Amo minha família, minha mãe, tenho amizades maravilhosas, um gato chamado Joaquim, superei fortes desafios pessoais, desses de quem não vêm de um berço de ouro, tenho um emprego de que gosto e consegui, com muita batalha, estar na faculdade que queria.

Mas numa época eu esqueci disso tudo e pensei em me matar.

O suicídio é ainda alvo do moralismo de muita gente. Não é incomum encontrar pessoas horrorizadas por alguém falar em dar fim à própria vida. Também cercamos conversas sobre este assunto de análises bobas, como “quer só chamar atenção”, “quem quer se matar não avisa” e várias outras, que afastam a possibilidade de um diálogo.

E quando se trata de ideações suicidas, quanto mais silenciadas, mais perigosas são.

Não sei se fruto de uma sociedade que desnaturalizou a tristeza com comerciais que vendem tudo através de modelos sorridentes, criamos um desprezo  por gente que admite ter sua face obscura, mesmo sabendo que todos nós temos. Não acreditamos na dor dos outros como cremos na nossa. Gente que sofre e pensa em desistir, num mundo cheio de super-heróis por todo lugar, é desprezível para quem se esconde de como é complexo viver.

A maior parte dos suicídios poderia ser evitado, caso vivêssemos com mais empatia e informação. Poder falar, contar para alguém, chegar até às ajudas necessárias, é primordial. Por isso estou vivo. Tive amigos, família, consegui amparo profissional capacitado. Nos dias de maior dificuldade, achei lugar pra conversar sem o moralismo que afasta, deprime. Já passou a época de, por falta de conhecimento, termos o suicídio como um crime.

Ninguém falha, como erra num assalto, na tentativa de suicídio, sobrevive.

Mortes por suicídio são mais numerosas que todas as formas de violência interpessoais (guerras, homicídios). Estatisticamente, é mais fácil uma pessoa morrer pelas próprias mãos do que assassinada por outra. Mesmo assim, há muito silêncio sobre o tema.

Quem sabe, num dia não muito distante, será mais comum alguém sofrer, chegar a ter ideações suicidas, mas, no fim, conseguir ter vida pra contar isso numa crônica, ou em qualquer outro lugar, e alcançar outras pessoas com um pouco de “Tudo bem, eu também já quis me matar. Você não é um criminoso imoral por isso.”

É só um ser humano de verdade, capaz de tristeza e de alegria, como não apareceu nos intervalos comerciais. E deixar quem precisa dizer o que pensa da vida, quem precisa demais desabafar, dizê-lo, chorar.

Viver é tempestade e calmaria,

amor e desamor, fome e comida

e a gente aguentando firme essa história que nos coube ser.

Se você está passando por um momento como passei, pode procurar a CVV, no site ou ligar no 141. Eles te ajudarão! Para entender mais sobre suícidio recomendo o artigo Suicídio: Observações sobre a tragédia de não mais querer viver  publicado no Comportese.

A ilustração de capa é de Stênio Santos. Visite o Perfil dele para conhecer mais do seu trabalho.

Alan Lima

"Escrevo porque fui alfabetizado um dia. Nada é meu, tudo é aprendido. Sou um autor de textos de todo mundo. O meu texto é pra ser isso, é pra ser teu." Um dos editores do Conti Outra e integrante do fan club de gifs de cachorros.

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