Fabíola Simões

Por que essa pretensão de querer dar conta de tudo?

Esses dias fui surpreendida no trânsito. Enquanto dirigia, liguei o rádio e tocava: “Passei a ser olhado com atenção/ E fui agradecer pela opinião/Então senti que o broto estava toda mudada/ Parecia até que estava apaixonada… Vesti azul! Minha sorte então mudou…”

Me diverti demais com a letra da música que _ pasmem! _ não conhecia, e segui em frente pensando no brotinho, no rapaz que de repente teve sorte… e na vida da gente, que poderia mudar assim, num piscar de olhos, bastando um amuleto que nos desse confiança para seguir em frente.

Lembrei do Dumbo, o personagem de Walt Disney que acreditava que voava só por causa de uma pena mágica. Um amuleto oferecido por Timóteo, o ratinho, para lhe dar confiança. Sem saber que realmente voava, Dumbo quase colocou tudo a perder quando a pena se soltou de sua tromba. Prestes a se espatifar no chão, foi alertado por Timóteo, que aos berros disse: “Você voa!!!!” e assim o fez recuperar as forças e planar.

O tempo nos permite desmistificar certas neuras que insistem em habitar nosso espírito; vamos adquirindo ginga, fortalecendo nossa alma e perdendo o medo de arriscar.
Arriscar leveza, sorrisos, audácia. Aprendemos a olhar nos olhos, a assumir nosso lado mais humano e nem por isso pior.

Outro dia fui abordada com uma pergunta capciosa no meio de um almoço de família. Da cabeceira da mesa surgiu a dúvida: “E você, não cozinha nem no fim de semana?” Fui pega de surpresa, e me senti na obrigação de dar explicações_ já que cozinhar nunca foi meu forte. Gaguejando, perdendo a ginga e deixando a “pena”escapar, fui justificando minha pouca habilidade culinária. Só depois me dei conta da cilada.

Fui soberba. Quis mostrar que dava conta do recado, quando na verdade não dou. Poderia ter respondido apenas “Não”.
… um “não” suave, sincero, simples. Um não redentor, olhos nos olhos, sem culpa.

É difícil aceitarmos nossas incompletudes. E nos habituamos a escondê-las, como se fossem defeitos. Não são.

Tem gente que não dirige, mas faz um risoto de sonho. Outros, tratam o computador como alien, mas operam lâminas e bisturis com a precisão de deuses. Tem gente que não cozinha, mas toca Bach ao piano divinamente. Algumas mães sentam no chão e passam horas brincando. Outras, inventam histórias e buscam na escola… cada um do seu jeito_ certos e incompletos_ porque perfeito, só Deus.

Vestir azul é reconhecer-se apto para o que você tem de melhor e não se martirizar por aquilo que ainda não é capaz, não gosta ou não quer.

Passamos muito tempo flertando com a perfeição e pecamos por excesso de soberba.

Temos dons, mas somos falíveis.

Temos que reconhecer nossos limites, aquilo que não nos cai bem, o que não é do nosso feitio. Por que essa pretensão de querer dar conta de tudo?

Se sua “pena” escapar ou a “camisa azul” não estiver disponível, alivie seu peso. Deixe espaço para aqueles que também lutam por seu lugar no mundo.

Sigamos em frente com humildade, reconhecendo que um simples “não consigo” não é sinal de fraqueza, e sim maturidade.

Você não deixará de ser quem é só porque faz café fraco ou coloca água demais no feijão…

Fabíola Simões

Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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