Marcel Camargo

Percebemos a educação de uma pessoa pela maneira como ela discorda de nós

A maneira como lidamos com o que frustra nossas expectativas e com quem nos rejeita diz muito sobre quem somos, da mesma forma acontece com nossas discordâncias. Ao longo dos dias, teremos que discordar de muitas pessoas, teremos que argumentar e fazer valer o nosso ponto de vista, teremos que confrontar várias pessoas que pensam completamente diferente de nós, inclusive convivendo com muitas delas em ambientes que nos forçarão a isso.

Não conseguiremos fugir a locais de trabalho, a salas de aula, a encontros sociais, onde haja quem discorde de nós, onde nem todos pensarão como nós. E ouviremos gente confrontando-nos em nossas convicções, desequilibrando nossas verdades, algumas vezes de forma deseducada e agressiva. Porque a muitos será impossível repensar os próprios caminhos – não sejamos nós quem não reflete sobre si mesmo.

É extremamente saudável quando podemos confrontar nossas ideias com ideias contrárias, uma vez que é assim que rompemos com o que impede os avanços a que temos direito, à medida que oxigenamos nossa mentalidade. O mundo vive em constante transformação e essa ressignificação também deve fazer parte de nós, enquanto nos ajustamos frente ao novo, que sempre vem.

Infelizmente, muitas pessoas confundem argumentação com gritaria, com imposição, como se todos fôssemos obrigados a dizer amém a tudo que elas dizem, como se estivessem sempre certas. Existem muitos tiranos por aí, prontos a ditar regras aos outros, impondo suas ideias e não aceitando serem contraditos, em hipótese alguma. Não sabem ouvir não, não suportam ser contrariados – os adultos mimados vida afora.

Por permanecerem presos ao egocentrismo, por recusarem-se a crescer, acabam se destemperando além da conta quando se veem confrontados no que julgam ser inquestionável, inabalável. E encontram no tom de voz alto e na agressividade recursos com que tentam esconder a incapacidade de defender o que querem com mínima coerência. Como dizem, carroças vazias são as mais barulhentas.

Bom mesmo é encontrar quem discorda de nós e consegue desenvolver uma discussão equilibrada, rica e produtiva. É somente assim que o conhecimento se espalha e a gente se torna melhor. Não existe quem consiga se desenvolver rodeado somente de ovelhas dóceis e obedientes, pois são as diferenças que nos tornam únicos e especiais, à nossa maneira. Mas com educação, por favor.

Imagem de capa: Tiko Aramyan/shutterstock

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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