Eu não sou uma pessoa de “partida rápida”. Fico esquentando os motores por uma demorada fatia de tempo, o mesmo tempo que passa rápido demais e, de tempos em tempos, me faz lamentar por isso.
Mas, como diria uma querida e íntima vizinha que me visita de tempos em tempos, implacavelmente: – Que diabos, você demora uma vida, e quando dá a partida, não sabe onde quer chegar! Melhor nem ensaiar o voo!
Então, D.Consciência, a vizinha, íntima, jura que me vê como uma garça de olhos vendados, correndo pra lá e pra cá, tentando voar sem pegar impulso, batendo de frente contra muros, tirando fino de carros, cães, postes e gente. Gente! Quanta gente que fala sobre objetivos e metas com uma certeza de fazer inveja- sim, eu sinto essa inveja! ; a gente fica imaginando aquela cadência perfeita, a pessoa realizando tudo no tempo programado, os postes e muros correndo para sair do caminho, as oportunidades fazendo aquele gesto com o dedinho – vem cá, eu tenho um atalho só para você!
Eu imagino isso, confesso, mas imagino porque tenho tempo. O mesmo tempo em que não estou fazendo o que sonhei fazer, o que projetei, plasmei, organizei, mas joguei dentro de alguma caixa de sapatos velha, que mora dentro do armário, na parte mais alta, por baixo da mala que também não sai há muito tempo de lá. E, não usar mala por um bom tempo é mau sinal. Sinal de que não estamos voando, e pior, que o chão pode estar-se abrindo e mostrando o que há embaixo. E esse embaixo revela o que não enfrentamos, o que varremos para longe, o que poda nossos anseios e encharca nossas asas…
Mas, voltando ao assunto, agora vou escrever. O tempo certamente vai jogar do meu lado, vai me ensinar como pegar impulso para voar e colocar nas linhas e entrelinhas tudo o que eu conseguir ver, sentir, guardar e lembrar, pois que a idade vem chegando e a vizinha, ela a Dona…Consciência (nunca tranquila), me fala que o que gente deixou guardado, depois funciona com uma certa dificuldade. Vou fazer um acordo com a vizinha: ela me libera do sermões e eu a deixo satisfeita, cumprindo pelo menos uma meta diária. Dessa forma ambas dormiremos bem. Esse é o grande plano e há de funcionar! Temos um acordo e não trapacearemos.
Agora, para começar a me (d)escrever, preciso de um lápis, um lápis para colocar o primeiro pontinho, o de partida, ponto inicial. Superstição ou não, é isso que eu vou fazer, assim que encontrar o lápis, que, ainda bem, não está naquela caixa de sapatos, caixa essa que irá para o lixo junto com os freios e arreios que guardei com apego por um tempo mais que longo, mais que uma vida suporta.
Aproveitando o momento, vou botar a mala no sol pra sair o cheiro de guardado. Já que o impulso é o caminho, que o voo seja surpreendente!
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