Escrever é tentativa de aproximar o longe, trazer para perto aquilo que não mais se vê.
Depois de concretizado o fato, concretiza-se a ausência minimamente imensa, desmedida em suas múltiplas extensões, porque a ausência sentida é tanto maior quanto menor o detalhe silenciado: o telefonema sem maiores importâncias que também respondemos com certa “desimportância”; o cigarro dividido; as horas mudas e a certeza inequívoca da presença do outro quando for necessário.
Perder alguém que se ama é verbo no gerúndio, crime continuado. O fato não pertence a uma data, o fato pertence aos dias e a rotina modificada.
A morte de alguém que se ama não é sentida no dia de sua partida, no dia sentimos o choque e o antagonismo de se estar vivo, porque é na morte que está a materialização e a certeza da vida. No dia da morte observamos a vida, depois é que se experimenta essa partida carregada de nãos e silêncios.
Depois da morte vive-se os dias que continuam exatamente iguais, com uma pequena grande diferença: todas as somas carregam em si uma secreta subtração.
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