Ana Macarini

“Muito se fala sobre aprender a dizer “não”… Mas ouvir também é um desafio”

Imagem de capa: Quino

Uma palavrinha tão curta, com um poder de fogo e corte tão grandes! “Ene-a-o-til”! Há quem faça até questão de soletrá-la para que não paire dúvidas sobre o fechamento da questão. E se para alguns de nós é difícil aprender a dizê-la; ouvi-la é uma unanimidade: para todos nós é difícil demais.

As negativas vêm quase sempre carregadas de alguma frustração. Ninguém entra num empreendimento, seja material ou afetivo, esperando que dê errado. É inerente ao ser humano criar expectativas.

E, afinal de contas, são as expectativas que botam fogo na gente por dentro, que fazem a gente tecer planos e empreender esforços. Arquitetamos, ansiamos, agimos e esperamos que as nossas iniciativas sejam frutíferas, e que os frutos sejam doces, de preferência.

Uma empreitada malsucedida é um não que a vida nos diz. Ninguém espera por isso. Por mais maduro que seja, por mais prevenido ou racional que se procure ser, é o sim que ilumina a cara da gente com um sorriso de vitória.

E quantas e quantas vezes, não enxergamos na negativa uma questão pessoal? Como se o “não” fosse à nossa existência e não àquilo que esperamos do outro ou imaginávamos que ele fosse fazer; e que, naquele momento, é a única resposta possível.

Ouvir um “não” é ter que lidar com o desafio de sentir-se rejeitado. É a não acolhida, ainda que circunstancial à realização ou satisfação de um desejo, seja ele imediato ou um planejamento de longo prazo.

É quase irracional! Quando fazemos uma pergunta, lá dentro da gente já está desenhada uma aprovação, a resposta do outro já foi rascunhada em nosso peito com uma caligrafia caprichada, letras redondinhas a traçar o conteúdo daquilo que esperamos ouvir.

E quanto mais formos poupados de forma exagerada das naturais frustrações da vida, mais violenta será a nossa reação ao sermos contrariados. A falta de intimidade com as adversidades deixa-nos frágeis e muito pouco confortáveis com as situações inesperadas.

Dizer “não” é uma arte. Porque é preciso saber dizê-lo, com justeza, serenidade e delicadeza. Requer de quem o pronuncia, um tanto enorme de equilíbrio e alguma confiança de se estar fazendo a coisa certa, no momento certo e da maneira mais honrada.

No entanto, para ouvir um “não”, essa honra precisa estar revestida de humildade. E, passado o susto inicial da quebra do sonho, ser capaz de entender que o que foi dito não há de voltar atrás. É preciso sair dali com a cabeça erguida o suficiente para enxergar na situação difícil que encerra a negação, um aprendizado. É preciso tirar do “não” proferido a lição que ele tem a nos dar, e seguir em frente porque logo adiante há de ter um “sim” que nos espera e pelo qual sempre vale a pena continuar tentando.

Ana Macarini

"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

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