O passar dos anos nos traz um olhar mais atento para o mundo. Aprendemos, ou ao menos deveríamos aprender, a valorizar coisas simples e a companhia de pessoas que não busquem o tempo todo ostentar uma posição que não lhes pertence. Desejamos menos aparências e mais do que for real, palpável, passível de ser colocado à prova do tempo e da convivência. Desejamos gente leve e genuína, que nos permita enxergar quem são por dentro cada vez que lhes brota um sorriso no rosto.
Preferimos a força bruta das interações diretas e francas nas quais possamos dizer e ouvir sentimentos nus às bajulações inúteis de amores e amizades fugazes; vazias. Aprendemos a delícia de viver sem máscaras e apreciamos o outro de cara limpa, sem idealizações infantis, sem expectativas irreais. Passamos a gostar de não ter de se esforçar o tempo todo para provar o que não somos, permitindo-nos o choro, a imperfeição e a fragilidade, vez ou outra. Passamos a nos definir mais, não permitindo que alguém que não mora dentro de nós, nos defina por seus critérios e valores que tantas vezes nada tem a ver com os nossos.
O passar dos anos nos traz firmeza, pés no chão e uma percepção mais clara de qual espaço ocupamos no mundo, mas também traz a dura constatação de que, enquanto a alma enriquece e nossos anseios enobrecem, o corpo simplesmente oxida e muda de modo implacável e já não encontramos no espelho a jovialidade e beleza física de outros tempos.
E nessa luta constante entre a decadência física e o brilho interior que se intensifica lá dentro à medida que ganhamos um quilo ou uma ruga a mais, penso na flor Amorphophallus Titanumanos, que floresce apenas duas ou três vezes a cada 40 anos, surgindo gigante, linda e enigmática, como se vivesse longas gestações de beleza e reconstrução de si mesma, e deixo escapar um sorrisinho que diz: me aguardem, os próximos 40 ainda me reservam algumas gestações.
Imagem de capa: Reprodução
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