O silencioso aprendiz, por Nara Rúbia Ribeiro

Por Nara Rúbia Ribeiro

“Sabe aquele silêncio que nem a espada mais afiada fatia? Esse silêncio é deus”, disse o velho mendigo ao menino engraxate que lhe entregava um copo com água, trazida do chafariz.

“Mas deus também pode ser outras coisas. Ele pode ser o verbo. E o verbo é algo que um analfabeto como eu não é capaz de entender. Mas o verbo pode se fazer carne viva. E se carne ele for, pode ser que os doutores o queiram matar. Então, é bom tomar cuidado com a letra, porque a sua ausência é falta e o excesso não garante nenhum acerto.”

O menino olhou o velho como se nada entendesse, mas com muita atenção.

“A pedra que mata o gigante, por exemplo, pode ser deus. Mas ele pode ser o próprio gigante, também… Daí é bom tomar cuidado com as pedras.”

O menino olhou as pedrinhas espalhadas no chão e acenou positivamente com a cabeça.

“Tenho como certo que deus pode ser borboleta. Já me disseram que um dia ele foi pombo. Se foi pombo, de certo pode ser borboleta, ou vagalume, ou louva-a-deus. Alguns já o viram no fogo. Outros falaram que ele é um homem com jeito de anjo. Ele muitas vezes anda com fome pela rua. Faz de conta que não tem o que beber e onde dormir. Por isso, menino, é preciso ter respeito. Tudo que é vivo merece respeito e tudo o que parece morto também. Posto que ninguém sabe medir a intensidade da vida das coisas.”

E o mendigo se levantou devagar. Seu rosto sulcado de sóis se contrapôs ao sol daquele poente. Seu rosto e o sol eram feitos de uma só luz.

E assim o velho retomou o seu itinerário sonolento, lento, letárgico, sob o olhar deslumbrado do menino engraxate. Passos à frente, volta-se ao menino e se despede:

“E não esqueça a gratidão por tudo o que a vida lhe dá, sem dizer se é bom ou se é mal, pois nunca se sabe se é no riso ou na tristeza, na feiura o na beleza, que o seu deus mais está. Minha gratidão pela água, meu filho.”

O garoto sorriu, assertivo. A beleza dessas palavras morreria com ele, pois era um pobre e analfabeto menino mudo. Mas dentro de si bem que poderiam germinar.  E ele olhou as pedrinhas do chão como mistérios. Os passarinhos são mistério, a água, as estrelas: tudo pode ser deus! Pois deus sempre está onde e quando nos puder encantar.

Imagem via O Globo

Nara Rúbia Ribeiro: colunista CONTI outra

Escritora, advogada e professora universitária.
Administradora da página oficial do escritor moçambicano Mia Couto.
No Facebook: Escritos de Nara Rúbia Ribeiro
Mia Couto oficial

Você achou esse conteúdo relevante? Compartilhe!

Nara Rúbia Ribeiro

Escritora, advogada e professora universitária.

Recent Posts

Psicóloga Josie Conti explica: o que quase ninguém fala sobre começar psicoterapia

Existe um momento silencioso, pouco comentado, em que uma pessoa percebe que talvez não consiga…

1 dia ago

Psicóloga Josie Conti explica por que algumas dores emocionais não melhoram só com força de vontade

Existe uma ideia muito comum — e silenciosamente cruel — de que sofrimento emocional melhora…

1 dia ago

Psicólogo online fim de semana: quando buscar apoio psicológico fora do horário tradicional

psicólogo online fim de semana, terapia online fim de semana, atendimento psicológico fim de semana,…

2 dias ago

Plantão psicológico online aos domingos: quando o sofrimento emocional não espera o horário comercial

Nem todo sofrimento emocional surge em horários previsíveis. Muitas pessoas relatam que os momentos mais…

2 dias ago

Ajuda psicológica imediata: quando a dor emocional não pode esperar

Há momentos em que o sofrimento emocional não aparece de forma gradual. Ele chega intenso,…

2 dias ago

Atendimento psicológico imediato: como funciona e quando buscar ajuda emocional urgente

O atendimento psicológico imediato é uma modalidade de cuidado emocional voltada para momentos em que…

2 dias ago