Categories: Ana Macarini

O que fazer com a dor do fim

Há pessoas que têm a incompreensível capacidade de morrer aos nossos olhos, mas continuar vivendo dentro de nós. E, não apenas vivem. Acomodam-se confortavelmente nas aconchegantes curvas das nossas lembranças, relaxando preguiçosamente sobre os escombros que deixaram para trás. E ficarão morando aí, indefinidamente. Até que tenhamos a coragem necessária para expedir uma inegociável e definitiva ordem de despejo.

Infelizmente não existe nenhuma lei universal que determine que todo amor deve nascer e morrer ao mesmo tempo. Caso isso fosse algo factível, não haveria dor de amor. E, a bem da verdade, não seria amor, posto que esse sentimento tão complexo, misterioso e sobre o qual sabemos tão pouco, alimenta-se das ondulações de nossos quereres, necessidades e desejos.

É difícil assumir isso, mas ainda não aprendemos o que é amor. Nenhum de nós aprendeu. O que conhecemos desse insondável senhor é a nossa pequena parte envolvida. Sabemos dos comichões na alma, provocados pela existência de um outro alguém em nosso campo de visão, ilusão ou toque. Sabemos da urgência provocada pelo desejo de querer estar perto, junto, dentro. Sabemos da felicidade que a reciprocidade de um amor confesso faz brotar no peito e espalhar-se pelo resto do corpo, em cada um dos mais íntimos cantinhos. Sabemos do que nos parece necessário para nos manter à salvo da solidão, de estar apenas em nossa própria companhia. Sabemos sobre depender, condicionar, relacionar nossa paz interior à certeza de sermos correspondidos.

Esse estado de torpor, letargia e alienação a todo o resto, bem poderia durar para sempre. Bem poderia vir com garantias de validade eterna. Bem poderia nos manter em segurança para o resto da vida. Mas, é preciso saber: amor não é fonte de alegria inesgotável, não tem selo de garantia, nem é feito para nos guardar do perigo.

Amor é um arriscar-se para fora de nós mesmos e saltar para um vale profundo, belíssimo e intocado, sem corda de segurança. Amor é para quem não tem juízo, medo de se descobrir outra pessoa ou apego excessivo a situações de conforto. Amor é bicho selvagem, não se consegue domesticar. E, não, não é de paixão que eu estou falando. É de amor mesmo! Essa invenção maravilhosa das mentes humanas que só se manifesta se houver um compromisso legítimo de alma, corpo e coração.

Não há como considerar tempo de vida os dias que optamos ou aceitamos viver sem amor. Na ausência dele, murchamos, azedamos, perecemos. E no fim dele, queremos encolher, encolher e encolher. Até nos tornarmos do tamanho exato para grudar na pele daquele que nos recusa, descarta, repele. O fim do amor é dor de carne viva. Só vai parar de doer aos poucos. Com o passar do tempo. Com a chegada de outro amor. Então, que tenhamos a coragem de entender que o fim do sofrimento não está nas mãos do outro. O outro foi embora. As mãos que temos são as nossas próprias. Parar de sofrer é, talvez, uma das decisões mais corajosas, fortes e bonitas que podemos tomar. Uma dessas avalanches de lágrimas há de ser a última. Cuidemos para não nos acostumarmos com a dor, a ponto de acharmos que doer e amar é a mesma coisa. Não é! Não é mesmo! De jeito nenhum!

Imagem de capa: Peerayot/shutterstock

Ana Macarini

"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

Recent Posts

Os sintomas pareciam de gripe, até que o pai ouviu algo muito estranho na voz do filho de 21 anos

Aos 21 anos, Lucas Martin havia acabado de concluir a faculdade na Universidade de Liverpool,…

3 dias ago

Todos conheciam seu rosto na tela, mas quase ninguém sabia o que acontecia nos bastidores

Durante décadas, June Lockhart foi uma presença familiar para milhões de telespectadores. Primeiro, interpretou uma…

3 dias ago

Quantos quadrados você vê na imagem? Um detalhe faz muita gente terminar a contagem cedo demais

Uma figura geométrica formada por linhas e blocos coloridos virou assunto nas redes sociais por…

3 dias ago

Pensava que a gema alaranjada indicava uma galinha mais saudável? A verdade é outra

Uma gema de cor laranja intensa costuma chamar a atenção quando o ovo é quebrado…

3 dias ago

O avô esperou 13 dias para conhecer a bisneta; bastou olhar seus olhos para fazer uma pergunta

Emily passou boa parte da gravidez tentando entender por que Caleb, seu namorado havia dois…

3 dias ago

Um homem sem-teto pediu sua mão antes de morrer; semanas depois, ela descobriu o que ele escondia

Durante cerca de dois anos, Sarah manteve um hábito antes de chegar ao trabalho: comprava…

4 dias ago