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O que faz quem já não acha seu caminhos nos roteiros viáveis?

Dia desses eu sofria, andava pela cidade e sofria, sentia o peso de um futuro totalmente abstrato, das decisões não tomadas, das contas não pagas, das raízes que precisavam se nutrir de solo. Sentia o medo de flutuar e também o de pertencer.

A chuva caia fina, os olhares nas ruas não se cruzavam, nos pontos de ônibus eram esperas, barulhos e telefones. A poesia já não se apoiava bem num copo de cerveja. O corpo já não descansava nos abraços não dados. Nada ao redor parecia fazer sentido. E o sem sentido me apertava o peito.

O que faz quem já não acha seu caminhos nos roteiros viáveis?

Mas na cidade também existiam árvores, um parque, os olhos de um amigo. E existiam crianças de uma escola pública andando na rua com um jovem professor que as ensinava a tocar as campainhas das casas e sair correndo. Existia um restaurante de esquina, servindo PF a 10 reais e um homem jovem tocando o negócio e cuidando sozinho de duas crianças na cozinha e ao mesmo tempo sorrindo pra gente. E existia um sebo com livros em extinção e o silêncio do vendedor que atrás dos óculos fundo de garrafão, entretido em sua leitura, não nos vigiava, nos deixando degustar a arte bem mais do que o pedantismo da palestra literária em algum centro cultural que ficava discutindo as razões porque poesia não dá dinheiro.
Existiam na cidade uma árvore e um amigo me falando de filosofia e me entendendo no meu sem sentido e sem formula nenhuma para me oferecer um caminho, uma saída, apenas tinha a delicadeza de me lembrar de aceitar a impermanência. De que nada estava certo e nem perdido, e que disso tudo eu já sabia e assim eu já vivia, amando e aceitando o vai e vem da vida. Amando e aceitando tudo que me chega aos olhos e às mãos. Amando e aceitando as pessoas e as minhas decisões (ou não decisões). E que a mudança é a minha escolha, e o não saber é o meu caminho. E que a dor vem justamente de pensarmos que temos controle de tudo. E que ela vai embora quando a gente ama e deixar ser.

Acho que a vida pode ter direção, mas viver não precisa ter um sentido maior do que o próprio ato em si.

Tem dias que a gente anda, e não há sequer um raio de sol no céu. Nesses dias a gente precisa de uma árvore, de um amigo ou de uma poesia para nos ajudar a resgatar com amor e devoção o sem sentido da vida.

 

Clara Baccarin

Clara Baccarin escreve poemas, prosas, letras de música, pensamentos e listas de supermercado. Apaixonada por arte, viagens e natureza, já morou em 3 países, hoje mora num pedaço de mato. Já foi professora, baby-sitter, garçonete, secretária, empresária... Hoje não desgruda mais das letras que são sua sina desde quando se conhece por gente. Formada em Letras, com mestrado em Estudos Literários, tem três livros publicados: o romance ‘Castelos Tropicais’, a coletânea de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’, e o livro de crônicas ‘Vibração e Descompasso’. Além disso, 13 de seus poemas foram musicados e estão no CD – ‘Lavar a Alma’.

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