De tempos em tempos, aparece nas redes aquele post bombástico: “Beethoven está ajudando a curar o câncer”.
Por trás da manchete exagerada existe, de fato, uma linha de pesquisa curiosa, nascida em laboratórios da UFRJ, que vem estudando como sons e músicas mexem com células vivas — inclusive células tumorais.
A história é bem mais interessante do que o meme sugere.
Quem assina esses estudos é a biofísica Márcia Alves Marques Capella, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, na UFRJ.
Leia também: 12 frases que arrepiam as pessoas que encontraram o sentido de suas próprias vidas
Em experimentos conduzidos com células em cultura, a equipe passou a testar algo simples na teoria e trabalhoso na prática: expor placas com células a diferentes peças musicais e medir o que acontecia com a viabilidade, a organização e o comportamento desses grupos de células depois de algum tempo.
Em um dos trabalhos que ganharam mais repercussão, os pesquisadores pegaram células MCF-7, um tipo de célula de câncer de mama humano muito usado em laboratório, e as expuseram à 5ª Sinfonia de Beethoven e à peça “Atmosphères”, de György Ligeti, por um determinado intervalo de tempo.
O resultado: depois de algumas dezenas de horas, houve uma redução na quantidade de células tumorais vivas, enquanto culturas mantidas em silêncio não apresentaram a mesma queda.
Outro ponto curioso dos experimentos é a comparação entre diferentes compositores. Enquanto Beethoven e Ligeti provocaram alterações mensuráveis nas culturas de células de câncer de mama, a “Sonata para dois pianos em ré maior”, de Mozart, no mesmo protocolo, não gerou mudança relevante.
Do lado da biofísica, a explicação passa pela natureza mecânica do som: ondas de pressão atravessam o meio, fazem estruturas microscópicas vibrarem e podem interferir em membranas, organelas e até na forma como as células aderem ao substrato.
Capella já explicou em entrevistas que o foco do grupo é entender como essa interação entre ondas mecânicas e matéria viva pode ser aproveitada para construir “paisagens sonoras” úteis, sem vender a ideia de cura milagrosa em alto-falante.
Em paralelo à leitura estritamente científica, muita gente da área de espiritualidade abraçou esses achados como uma confirmação de algo que já defendia há anos: a ideia de que frequências sonoras específicas podem reorganizar o sistema biológico, ajudando a “limpar” padrões que adoecem o corpo.
Termos como “frequência de cura” ou “ressonância do ser” aparecem com frequência em textos que citam o estudo da UFRJ, ainda que essa linguagem não faça parte dos artigos técnicos originais.
Aqui vale separar as coisas: a pesquisa mostra que som pode, sim, alterar o comportamento de células em laboratório; falar em terapia pronta ou “cura estelar” já é um passo além, baseado em crenças pessoais, não em evidência clínica.
No fim das contas, o que esses trabalhos realmente colocam à mesa é um campo de estudo promissor: como ondas sonoras, em faixas específicas de frequência e intensidade, interferem em células saudáveis e tumorais, e se dá para transformar isso em alguma ferramenta complementar de tratamento no futuro.
Por enquanto, porém, a 5ª sinfonia de Beethoven segue sendo uma peça monumental da música clássica — e um estímulo interessante para células em laboratório —, mas não substitui quimioterapia, radioterapia nem qualquer outro tratamento oncológico aprovado.
Leia também: Anvisa proíbe esmaltes e unhas de gel após descobrir substâncias que causam câncer e infertilidade
Compartilhe o post com seus amigos! 😉
Antes de ser reconhecida pela voz rouca, pelo poncho vermelho e por interpretações capazes de…
Há fotografias antigas que sobrevivem como simples registros de uma época. Outras começam a ganhar…
Uma lata de desodorante é um objeto tão comum dentro de casa que dificilmente desperta…
Crescer diante das câmeras quando seus pais estão entre os atores mais conhecidos de Hollywood…
Nem toda pessoa se sente confortável falando por vídeo ou telefone. Para alguns pacientes, escrever…
Algumas experiências terminam no calendário, mas continuam acontecendo dentro da pessoa. Um acidente já passou,…