Marcel Camargo

O pior tipo de estranho é aquele que um dia a gente tanto conheceu

O tempo passa e muitas coisas mudam, quase nada permanece igual. Tudo o que a vida traz modifica as pessoas, os ambientes, os sentimentos. Nesse girar, ganhamos experiências, sabedoria, acumulamos momentos, no entanto, também perdemos e deixamos para trás.

O passar dos dias vai nos modificando, ressignificando o mundo à nossa volta, reordenando os nossos sentimentos, ajustando o que se encaixa e desarticulando o que não cabe mais. É por isso que, não raro, pessoas de quem já fomos íntimos ontem poderão muito bem amanhã já não nos significarem mais nada.

Quantos amigos de infância ou de adolescência já não se tornaram distantes? Quantos amores que pareciam eternos hoje nem se dignam a um aceno de cabeça? Porque a gente muda as prioridades e, nesse ritmo, acaba percebendo quem fica e quem tem que sair. Quem é para sempre e quem nunca foi nem um dia todo.

Algumas pessoas sairão de nossas vidas com tranquilidade, enquanto de outras nos separaremos em meio a tempestades, lágrimas e decepções. É natural vermos gente indo viver a própria lá longe, porém, nunca estaremos preparados para ver partindo, a contragosto, quem morou num lugar especial, bem dentro de nós. Difícil ter que sufocar, abafar os sentimentos, quando o foco de nossa estima fica andando pra lá e pra cá, sem a gente.

Será uma viagem dolorosa que atravessaremos, enquanto nos despimos de toda e de qualquer afetividade em que tanto apostávamos, inutilmente, nutrindo e regando amor em terreno infértil. Ex-amores, ex-amigos, que um dia tão caros nos eram, de repente terão que passar por nós como meros desconhecidos. Antes próximos, agora estranhos – e a gente morre um pouquinho por dentro. Mas passa.

Não estaremos livres de nos decepcionar com as pessoas, tampouco conseguiremos evitar que se decepcionem também conosco. É impossível agradar a todos e muito do que esperamos receber nunca chegará. Algumas pessoas se tornarão estranhas em nossas vidas, portanto, mantermos nossa integridade e nossos princípios intactos é que nos ajudará a não nos tornarmos estranhos para nós mesmos, porque isso, sim, seria imperdoável.

Imagem de capa: Olesya Kuprina/shutterstock

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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