Por Nara Rúbia Ribeiro

Cada um de nós possui um sol interior  e é  a esperança quem o faz nascer. Quando a esperança esmorece, as noites se acumulam no solo da emoção. A esse amontoado de noites há quem chame de diversos nomes, os médicos o chamam “depressão”.  Quero contar que já passei por isso e que, acreditem, Rubem Alves, em dia de máxima angústia, salvou a minha vida.

Descobrir a verdadeira face do mundo, da vida, despir a máscara que camufla os sentimentos hostis, a vaidade histérica, a deficiência do afeto,  isso é tarefa de gigante. E gigantes são todos aqueles que penetram a natureza das coisas, que  não temem conhecer os abismos do mundo e de si.

Minha vida é marcada por uma sucessão de fatos que me fizeram conhecer muitos abismos.  A falta de recursos materiais e o excesso de reflexões prematuras roubou-me, em parte, a infância. A religião aprisionou-me  a adolescência numa redoma de culpa e de medo. O excesso, o transbordar do sentimento me roubou o gozo do efêmero.  E tudo isso, somado a uma gravidez de risco, um casamento fracassado, um divórcio dolorido, a problemas de saúde de natureza grave que me fizeram passar por três cirurgias seguidas, somado ainda a trabalhos que não me realizavam e ainda não me realizam, somado à solidão de me ver incompreendida pelo mundo, somada à dor de não conseguir ser nada daquilo que sonhei, acarretou na minha desistência de tudo.

Foram dias, meses, mais de três anos sem sonho. Sem nenhum projeto. Eu mal conseguia descer do apartamento em que morava. Advogada, ao me lembrar de que necessitava ir ao fórum, tinha náuseas. Desliguei telefones. Passei meses sem olhar noticiários. E a única coisa que me ligava a mim mesma era a minha escrita. Eu escrevi, nesse tempo, centenas de poemas. A necessidade cotidiana me fazia a cada dia ainda mais derrotada. Não conseguia prover as necessidades minhas e de minha filha; já havia gasto todas as minhas economias. Então, nesse ápice de angústia, decidi que não mais viveria. Foi quando me deparei, em meu e-mail, com um vídeo de Rubem Alves, no qual ele dizia:

“Uma vez um aluno me pediu uma entrevista, chegou na minha casa e me fez essa pergunta: ‘como é que o senhor se preparou, como é que o senhor planejou a sua vida para chegar aonde chegou?’ Eu percebi logo que ele me admirava, que queria o mapa do caminho e eu disse a ele, ‘eu cheguei aonde cheguei porque tudo o que planejei deu errado. Então eu sou escritor por acidente. Já fui outras coisas, já fui professor de filosofia, já fui teólogo, já fui pastor. Agora eu sou um velho.”

Creio que muitos desconheçam a força de suas palavras, a contundência, a capacidade que elas possuem de ser, no outro,  a alavanca que faz reerguer o sol interior que jaz adormecido. Essas palavras do Rubem, em mim, dissiparam a noite angustiosa da culpa por meus fracassos e me fizeram valorar o sol (o meu sol) que ainda estava a nascer.

Nota da CONTI outra: o texto acima foi lido e reconhecido pela filha de Rubem Alves e enviado para o acervo de textos relativos ao pai.

Conheça também o Instituto Rubem Alves e acompanhe seus projetos.

Nara Rúbia Ribeiro

Escritora, advogada e professora universitária.

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