Tanto se fala sobre a importância de praticar o desapego, os movimentos minimalistas, as pessoas que largam tudo e correm o mundo e bradam orgulhosos feitos no barulho infinito da internet. Eu tenho para mim que desapego é desapego de coisas materiais sim, ou melhor, também. Mas, existe um lado importante sobre o ato de desapegar que me interessa mais. E é preciso saber reconhecê-lo.
Para mim, reduzir a casa a uma mochila e correr o mundo, não é desapego, é aventura. Partir e deixar tudo para trás, não é desapego, é desistência, é fuga. Desfazer-se de muitos bens materiais, não é desapego é praticidade. Desistir sem tentar, não é desapego, é covardia. Entregar nas mãos de Deus, não é desapego, talvez seja fé, ou comodismo.
Desapegar é uma constante busca da tênue linha do que é suficiente, que ora move-se para cá, ora move-se para lá. É seguir tentando, arriscando, criando, sem garantia alguma dos resultados. É aprender a perdoar em silêncio. É desconstruir-se e tornar-se mais inteiro. Desapegar é aprender a viver sem certezas. É deixar ir aquilo que já não nos serve, mas que nos fará falta.
Desapego para mim é viver a dura morte de alguém que ama e seguir acreditando que a vida, mesmo com muita dor, é bela. É viver o luto até secar as lágrimas, sem anestesiar a dor. Desapego é viver uma rejeição e seguir acreditando no seu próprio valor sem desqualificar a escolha do outro. É aprender a suportar um não sem desistir do que se acredita. É desistir do que se acredita. É saber que é preciso enfrentar e ficar até dar a hora de ir e depois saber ir quando essa hora chegar.
Desapegar é ter disponibilidade para escutar o outro, para entender os fatos, para admitir nossas próprias ignorâncias, para admitir erros e mudar de ideias, de valores, de crenças. É estar aberto para viver o novo e desconhecido. É a grande expressão de escolhas feitas com sabedoria, cuidado, amor e dor. Porque se desapegar não te faz sangrar, não é desapego, é descarte.
Quem deixa ir engrandece o mundo.
Pois cresce um pouco mais quem permanece na crise, disponível para si e para os outros, quem tem paciência de desatar os nós, um a um, sem cortar a corda. Quem enfrenta até o fim e consegue dar fim. Quem deixa ir os anos idos e os anos vindos, os amigos, os amores, as dores e as alegrias. Quem se liberta das memórias doloridas, de traumas e repetições, dos medos, dos sonhos não concretizados, dos amores mal resolvidos para viver uma vida escolhida.
Engrandece o mundo quem torna-o mais leve e aprende a deixar ir.
Ilustração: Eva Uviedo
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