Foto: Freepik
Uma cena inusitada e carregada de simbolismo marcou o Cemitério da Saudade, em Sumaré (SP), no último domingo (3). Entre lápides e ao som de atabaques, o casal Healing e Heryck oficializou sua união em uma cerimônia repleta de elementos espirituais, atraindo olhares curiosos e reações mistas.
A celebração, que contou com danças e a presença das imagens de Rosa Caveira e Exu Caveira, seguiu os preceitos da “umbanda independente” praticada pelo casal. Healing, que comanda um terreiro em Hortolândia (SP), explicou que a escolha do local tem profundo significado espiritual. “Quando eu estou me sentindo morta, vou ao cemitério para me sentir viva. Aqui é onde sinto a força das minhas entidades”, afirmou.
Jocilei Robson França, coveiro com 15 anos de experiência no cemitério, não escondeu sua surpresa. “Já vi muita coisa aqui, mas casamento, nunca“, comentou. Enquanto a cerimônia acontecia, uma família realizava o sepultamento de um ente querido a poucos metros, criando um contraste de emoções.
Para garantir privacidade e segurança, o casal contratou o vigilante Richard Anderson de Oliveira, que inicialmente pensou que se tratava de uma pegadinha. “Nunca imaginei trabalhar em um casamento assim. Foi algo completamente diferente”, disse.
Segundo o G1, as cores preto e vermelho dominaram o evento, desde as vestimentas dos noivos até a decoração do altar, onde estavam as imagens das entidades que regem o terreiro. O filho de Healing, Jhefrey, de 19 anos, conduziu a cerimônia com grande emoção. “Foi uma honra casar minha mãe e minha mãe de santo“, declarou.
Apesar das críticas, Healing ressaltou a alegria e a energia positiva da celebração improvisada em apenas três dias. “Nós não estamos faltando com respeito. Este é o ponto de força das minhas entidades, e aqui estão meus amigos“, afirmou.
A expressão “umbanda independente” usada pelo casal gerou questionamentos dentro da comunidade religiosa. Ronaldo Antônio Linares, presidente da Federação Umbandista do Grande ABC, rejeitou a classificação. “Umbanda é uma só, voltada para a prática do bem e da caridade. Essa prática não pode ser reconhecida como umbanda“, declarou.
João Galerani, membro do Conselho Religioso da Associação das Comunidades Tradicionais de Matriz Africana de Campinas, destacou que a umbanda possui diversas vertentes devido à ausência de um órgão regulador. “Embora não haja consenso, a base da umbanda é a caridade e a não cobrança nos atendimentos”, explicou.
Para o casal, o casamento no cemitério foi uma expressão de sua fé e identidade. “Para muitos, cemitério é um lugar triste. Para nós, é onde encontramos paz e nos conectamos com nossas entidades“, disse Heryck. Healing, que também é conhecida como “Rainha da Feitiçaria” nas redes sociais, utiliza a plataforma para ensinar simpatias e atender seguidores em busca de trabalhos espirituais.
Enquanto os noivos se preparam para oficializar o casamento civil no dia 13, a cerimônia no Cemitério da Saudade já se tornou um marco inusitado e repleto de significados na história da cidade.
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