Noiva em Fuga (Runaway Bride) é um longa de comédia romântica que recheia a lista de clássicos românticos da década de 90, foi pouco aclamado pela crítica, e traz pouca novidade para um gênero onde sobram clichês e falta originalidade de roteiro.

Protagonizado por Richard Gere e Julia Roberts, conta a história da jovem Maggie que fica falada em sua pequena e pacata cidade por fugir do altar três vezes consecutivas. Ike Graham, é um repórter de Nova York que quer salvar sua decadente carreira e resolve escrever a história da famosa “noiva em fuga”. Dentro dos exemplos de mecanismos de evitação de contato na Gestalt-terapia, podemos dizer que Maggie faz confluência.

A confluência foi um dos primeiros mecanismos de evitação de contato descritos por Perls, ele a explicou como sendo o tipo de interação em que o indivíduo não sente haver uma barreira entre ele e seu meio, quando sente que ele próprio e o meio são um só. Em estado patológico de confluência, a pessoa não consegue fazer contato consigo mesma, nem distinguir-se do meio. Em termos mais simplificados, confluir é perder-se no outro, portanto sua polaridade é o “isolamento”.

Um indivíduo quando conflui é aquele que sempre se esforça ou muda para agradar ao outro, que tem dificuldade de se posicionar ou agir quando suas ideias destoam do todo e prefere sempre evitar conflitos. A cena clássica do filme é quando Ike confronta Maggie sobre como ela gosta de comer ovos no café da manhã. Ao estudar seus relacionamentos passados ele descobre que ela gosta ovos de acordo com o que cada noivo prefere. “Você é a mulher mais perdida que conheço, tão perdida que não sabe nem como quer comer ovos! Com o padre, eram mexidos; com o hippie eram fritos; com o outro, eram escaldados, e agora, só com claras!”

Uma metáfora clássica para pessoas em confluência, que geralmente perdem-se mais ainda quando se apaixonam. Relacionar-se certamente inclui o movimento de moldar-se ao outro, faz parte de um bom contato e do crescimento da relação mudar, ceder, negociar. Mas, existe uma dose saudável para isso, que depende de cada pessoa e relação. O que não é saudável é tornar-se igual ou o que o outro deseja para agradá-lo. No fim das contas ninguém (em sanidade mental) gosta do que não é autêntico. Na maioria das vezes os relacionamentos com pessoas confluentes acabam justamente porque é cansativo e entediante relacionar-se com alguém que não tem opinião própria, nem firmeza de querer. A mesmice não gera crescimento nem mudança, só fazemos contato com aquilo que nos é diferente.

A jornada da “Noiva em Fuga” é interessante do ponto de vista da psicologia, pois no decorrer da historia ela se dá conta que precisa conhecer melhor sobre si antes de relacionar-se. Trata-se daquele antigo clichê, que merece ser revisitado. Para amar o outro, ela precisa antes descobrir quem é, o que gosta, o que quer. Conhecer suas fronteiras, e tornar-se inteira. “Queria dizer a você sobre porque fujo, às vezes, corro das coisas, quando eu caminhava até o altar, era para alguém que não fazia ideia de quem eu era realmente. E só a metade da culpa era dele, pois fiz todo o possível para convencê-lo de que eu era exatamente o que ele queria. Então, foi bom eu não ter levado adiante, porque teria sido uma mentira. Adoro ovos mexidos! Odeio todos os outros!”

Como todos os mecanismos de contato, a confluência também pode ser funcional, é importante e nobre cedermos em prol do outro, e muitas vezes evitar conflitos e discussões que não são importantes. “Escolher nossas batalhas” (pick your battles), mas para isso antes precisamos descobrir quais são nossas batalhas. O convite ao padrão confluente é aprender sobre si, experimentar coisas novas, pensar e decidir sem a interferência de outros ou a preocupação excessiva em agradar. Começa passando por gostos simples, como preparo de ovos, mas inclui também questões importantes como estilo de vida, sonhos, desejos, valores e crenças.

Imagem de capa: Reprodução

Tatiana Nicz

Libriana com ascendente em Touro. Católica com ascendente em Buda. Amo a natureza e as viagens. Eterna curiosa. Educadora e contadora de histórias. Divagadora de todas as horas. Escrevo nas horas vagas para aliviar cargas, compartilhar experiências e dormir bem. "Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia." Guimarães Rosa

Share
Published by
Tatiana Nicz
Tags: confluência

Recent Posts

Psicóloga Josie Conti explica: o que quase ninguém fala sobre começar psicoterapia

Existe um momento silencioso, pouco comentado, em que uma pessoa percebe que talvez não consiga…

17 horas ago

Psicóloga Josie Conti explica por que algumas dores emocionais não melhoram só com força de vontade

Existe uma ideia muito comum — e silenciosamente cruel — de que sofrimento emocional melhora…

18 horas ago

Psicólogo online fim de semana: quando buscar apoio psicológico fora do horário tradicional

psicólogo online fim de semana, terapia online fim de semana, atendimento psicológico fim de semana,…

2 dias ago

Plantão psicológico online aos domingos: quando o sofrimento emocional não espera o horário comercial

Nem todo sofrimento emocional surge em horários previsíveis. Muitas pessoas relatam que os momentos mais…

2 dias ago

Ajuda psicológica imediata: quando a dor emocional não pode esperar

Há momentos em que o sofrimento emocional não aparece de forma gradual. Ele chega intenso,…

2 dias ago

Atendimento psicológico imediato: como funciona e quando buscar ajuda emocional urgente

O atendimento psicológico imediato é uma modalidade de cuidado emocional voltada para momentos em que…

2 dias ago