Ninguém aqui é puro anjo ou demônio

É incrível imaginar que mesmo numerosos sobre a terra não há um só de nós que seja apenas o bom ou tão somente o ruim. E quando digo sobre ser bom ou ruim não estou dizendo apenas para os outros, mas também para nós.

Nascemos assim misturados, com um pouco de cada lado. Somos como promessas que podem vir a ser, somos como enigmas a espera de um sinal, somos caminhantes em busca de uma razão. E muito de tudo que somos depende apenas de nós.

Dentro de nossa natureza instintiva existem forças que lutam para sobreviver. Os antigos índios Cherokees costumavam contar que cada um de nós carrega dentro de si bons e maus lobos. Os bons dizem de nossas virtudes, belezas e de tudo de melhor que nos habita. Os maus lobos falam de nossos medos, de nossas fraquezas, de nossas neuroses, em suma representam o ruim que existe em nós. Para os índios essas duas forças não vivem de forma harmônica, pelo contrário, elas se digladiam dentro de nós e se alimentam do que lhes ofertamos diariamente.

Serão mais numerosos e robustos em nós os lobos bons ou maus? Isso dependerá apenas de quais iremos efetivamente alimentar. Dependerá de nossa escolha diária em nutrir o melhor ou o pior que existe em nós.

Eu sou uma grande admiradora da sabedoria indígena, pois ela é hábil em, através da observação minuciosa do cotidiano, transformar vivências em belas estórias. Pensar o bem e o mal como matilhas interiores é uma bela forma de expressar nossa complexidade sem esconder ou recriminar o que é imperfeito em nós, contudo não deixa de ser uma ótima maneira de nos mostrar, com sinceridade, que podemos vencer o nosso ruim com boas decisões.

Medos infundados, ressentimentos profundos, rancores latentes, apreço material, competitividade desleal, ataques de ansiedade, insegurança, ausência afetiva… tudo de ruim que há em nós nasceu pequeno e foi diariamente nutrido pelas nossas fraquezas ou até mesmo pela nossa indiferença.

E as coisas podem até mesmo caminhar relativamente bem para nós até que em um belo dia, ao buscarmos o que temos de bom dentro da gente, ao engendrarmos as mãos procurando um bálsamo, encontramos apenas a sombra do melhor que nos habitou.

Nesse momento é muito importante que tenhamos clara a ideia de que nos equivocamos em alimentar o que não era bom e que o melhor de nós pode ser resgatado sim, contudo por meio de esforço e de mudanças efetivas.

Mudar não é fácil, mas é necessário. E assim como quando nos mudamos de casa, quando retiramos tudo dos armários para decidir o que levar, mudar a forma de viver exige que a gente avalie o que estamos levando conosco e se isso é realmente importante. Mudar é olhar para dentro, é encontrar muitas vezes coisas das quais não gostamos e decidir que mesmo diante das dificuldades podemos fazer diferente.

Há pouco li um texto sofrido de uma jovem redatora que após ter se formado e de ter começado a trabalhar para revistas escrevendo matérias encomendadas, muitas vezes contrárias à sua opinião, já não conseguia mais colocar as próprias ideias no papel. Ela mencionava que tinha escolhido a profissão por ter o sonho de um dia escrever seu próprio livro, mas que com o tempo acabou vendendo seu lado criativo e minando o ímpeto da escrita que existia nela.

Apesar de ter ficado com o coração na mão ao ler suas palavras, enxerguei no texto o início de uma busca interior pelo resgate de um bom lobo. Seu texto denotava, mesmo que receoso, que ela começava a alimentar o melhor novamente. Contudo só alimentar o nosso bom lado não basta, é preciso que deixemos minguar de fome as forças que nos impedem de seguir pelos melhores caminhos. É preciso que assumamos que há em nós o que também não é imaculado, para que assim possamos nos posicionar de maneira a liderar as matilhas que nos habitam, fazendo crescer a boa e diminuindo a má.

Ninguém é puro anjo ou demônio, ninguém é só o bom ou o mau, somos tudo isso, mas para que possamos ser o que quisermos precisamos admitir essa realidade dúbia que nos habita, decidir de forma ponderada pelo melhor e seguir em frente.

 

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade:

Vanelli Doratioto – Alcova Moderna

(Imagem de capa Meramente Ilustrativa)

Vanelli Doratioto

Vanelli Doratioto é especialista em Neurociências e Comportamento. Escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.

Recent Posts

Mary Ann Bevan aceitou ser exibida em público, e o motivo tinha relação direta com seus quatro filhos

Durante boa parte do fim do século XIX e do início do século XX, pessoas…

3 dias ago

Algumas das fotos mais interessantes de Diana não são as mais famosas e contam outra parte da história

Poucas figuras públicas foram fotografadas com tanta frequência quanto a princesa Diana, né? Durante os…

3 dias ago

A inesperada ‘revelação’ de uma apresentadora da Fox surpreende os telespectadores

Holly Morris passou 25 anos diante das câmeras da FOX 5, em Washington, e construiu…

3 dias ago

Uma cena sensual virou um dos momentos mais famosos do clássico com Jamie Lee Curtis, e por um detalhe fora do esperado

Quando True Lies chegou aos cinemas, em 1994, James Cameron já tinha no currículo filmes…

5 dias ago

Diana chorou ao se despedir de Charles, mas só anos depois explicou o que tinha acontecido antes

Uma das imagens mais conhecidas do início do relacionamento entre Diana Spencer e o então…

5 dias ago

Após o parto, o silêncio na sala fez esta mãe perceber que algo estava diferente com a filha

Durante a gravidez, os exames de Eliza Bahneman não indicavam que sua filha nasceria com…

5 dias ago