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Não toque no meu bom humor!

Vivemos momentos bastante mau humorados, desanimadores. Momentos mal encarados.
Crise no país, corrupção, intolerâncias, politicagens, lutas (ainda) por direitos óbvios… É a tal fase do gigante que acordou mas, quando esfregou os olhinhos, achou que era melhor dormir de novo, e, como não foi possível, agora está olhando para a bagunça em volta, totalmente contrariado. A consciência desperta, mas, se fosse mais esperta, encararia tudo com um humor diferente, com o humor que muda o cenário, que pensa em alternativas, que se impõe pela presença gostosa.

A gente queria que tudo fosse diferente, que as ciclovias fossem infinitas, que nunca ficássemos doentes, que pudéssemos olhar nossos celulares sem medo de sermos assaltados, que todos os escândalos não passassem de notícias inventadas para vender jornal.

Mas não é assim e não é só isso. Para engrossar o caldo, ora estamos sem dinheiro suficiente, ora ficamos sem o afeto que queríamos, sem companhia, sem vinho, sem critérios… E ainda, a maioria de nós tem família e família por si só já é pêndulo de humores; E o computador trava, a foto não favorece, a dieta desanda, a sandália arrebenta, a ressaca maltrata, perdemos as chaves e o sorriso no rosto. Pronto, explodindo em 3, 2, 1…

Agora a reflexão: Seremos nós todos uns mau humorados?

É hora de recusar esse título. É momento de entender o passar da vida, a pressa do tempo, a feiura da testa franzida, do resmungo inútil.

O meu bom humor é particularmente debochado, mas não é ofensivo nem ácido, só gosta de fazer analogias com situações verídicas. É a minha saída, cada um tem a sua.

Já o meu mau humor é um possuidor de alma, um spray congelante, um gambá assustado. Prefiro mantê-lo longe e sedado.

A doença do mau humor se chama distimia. A cura pelo bom humor não tem nome, no máximo um apelido de terapia. Sempre damos mais peso e títulos aos vilões, impressionante isso. Nossa natureza avinagrada se manifesta a qualquer mínima contrariedade. Somos bélicos, defensivos, palpiteiros, resmunguentos.

E então, no meio de toda essa gincana que é a vida, entre rosnados e caretas, aparece uma criatura desfilando sorrisos e cumprimentos. Desacostumados que estamos, repudiamos de pronto. Colocamos na conta da alienação, do despreparo. O bom humor alheio incomoda demais! Soa como um espelho retorcido, um beliscão bem apertado, uma lição de moral bem dada. E é.

Ainda bem que sempre há uma criatura por perto que nos mostra o lado divertido das coisas, que nos instiga até arrancar um sorriso amarelo, que provoca, desafia, enxerga beleza até em raiz seca. E ainda bem que uma vez ou outra essa criatura sou eu ou você. Nem percebemos, mas assim é. Geramos uma lufada de fôlego para aturar todos os motivos que temos para nunca mais sorrir.

E, quando for o nosso dia de sorte, de um inexplicável bom humor e alguém se aproximar tentando manchar ou envenenar, possamos dizer sorrindo: Não ouse tocar no bem humor!

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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