Marcel Camargo

Não pare no tempo por alguém que continuou sem você

Por mais que pareça egoísmo e descomprometimento, um dos maiores favores que poderemos prestar a nós mesmos sempre será desenvolver a capacidade de desapegar do que não tem retorno ou do que retorna peso inútil. A vida segue, com ou sem você prestando atenção nela, com ou sem o seu consentimento, com ou sem a sua presença. Andar na contramão do curso do tempo, por conta de estar preso a decepções, de nada adiantará.

Será inevitável, em muitos momentos, canalizarmos o que tivermos de melhor ao emprego inadequado, à amizade fajuta, ao parceiro errado, ao amor não correspondido. Da mesma forma, não fugiremos às decepções com as pessoas, com os acontecimentos, inclusive com as decepções em relação a nós mesmos. É preciso, portanto, saber deixar ir e estar pronto ao que estiver por vir.

Sofreremos a dor da não correspondência, da ausência de reciprocidade, pois nem sempre iniciaremos um relacionamento com alguém que esteja disposto a trocar, a doar-se, a enxergar o outro; bem como nem sempre conseguiremos manter aceso o nosso interesse por determinadas atividades, determinadas carreiras. A gente vai se reinventando e se transformando, porque a vida nos cobra isso, essa capacidade de se aprimorar e de se tornar melhor, mesmo em meio a raios e trovões.

E, nesse percurso, pessoas deixarão as nossas vidas, pessoas deixarão de nos amar, de nos querer, de precisar de nós em suas vidas. Eis um dos piores dissabores que enfrentaremos: deixar de ser amado. Quando o amor começar a ir sem voltar, não encontrando terreno acolhedor, sem que encontre acolhimento junto ao coração do outro, teremos que aceitar e deixar a pessoa ir.

É preciso deixar ir e deixar vir. Deixar o ódio, a mágoa, a culpa, o ressentimento, o desamor partirem. Deixar vir o que é bom, quem é verdadeiro, pessoas que retornam na medida exata, que sorriem na hora certa, que abraçam a nossa alma. É dessa forma que não nos demoraremos além da conta nos recantos sombrios de nossa essência. É assim que o tempo conseguirá carregar para bem longe o que nos feriu, trazendo-nos o repouso tranquilo de tudo o que merecemos, junto a pessoas verdadeiras, em lugares aconchegantes, preenchidos com amor correspondido, principalmente o próprio.

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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