Marcel Camargo

Não alimente amor por whatsapp

Como todos já sabemos, a vida é feita de escolhas e teremos que lidar com suas consequências enquanto vivermos. Desde que acordamos, até o momento em que resolvemos dormir, ao fim do dia, escolhemos, optamos, selecionamos o que vamos fazer, quais palavras usaremos, o que comeremos, com quem conversaremos, como nos comportaremos, enfim, priorizamos algumas coisas, em detrimento das demais.

Infelizmente, costumamos colocar na primeira ordem do dia nossos compromissos com o trabalho, o que é natural, haja vista nossas necessidades básicas que envolvem dinheiro. Não titubeamos em agendar reuniões, em responder a mensagens de colegas de trabalho, em deixar a refeição de lado por conta de compromissos atrelados ao nosso emprego. Protelamos qualquer coisa em favor de agendas trabalhistas.

Nesse contexto, mensagens de familiares podem esperar. Almoço com um amigo de longa data é perfeitamente cancelável. Aquele café rápido com os pais pode ser desmarcado. O “bom dia” e o “eu também te amo” são desnecessários, afinal, um emoji no whatsapp já dá conta disso tudo. A gente sempre acha que as pessoas entenderão nossas razões, que saberão do nosso sentimento por elas, sem que seja necessário ficar mantendo laços frequentes. Mas isso não corresponde à verdade, quando se trata de ausências repetidas e contínuas.

Não há relacionamento que consiga se sustentar no vácuo, no vazio, em vias de mão única. Sentimentos verdadeiros não sobrevivem de promessas, de aplicativos, de emojis, de ilusões. Não é preciso viver grudado, mandar textão ou áudios imensos, a todo momento, nem deixar de ser você mesmo. Não é preciso parar o que estiver fazendo sempre que solicitado por alguém de fora. Apenas será necessário agir de forma realmente recíproca, de uma forma que o outro se sinta alguém de verdade aos seus olhos.

Reciprocidade não implica estar vinte e quatro horas de plantão para atender às necessidades alheias, mas significa que o parceiro tem a certeza de que poderá contar com o outro, quando mais precisar, ao vivo, e não pela tela do celular tão somente. Amor se rega, carinho se cultiva, atenção se perpetua. Sem adubo afetivo, sentimento arrefece. E fim.

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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