Morte, eu te absolvo

A primeira reação é sempre desconcertante, aguda, sem resposta na linguagem humana.
A morte chega e leva alguém nosso. Não do outro, mas nosso.
Por vezes ela avisa, em outras, sugere, na grande maioria, surpreende.

E encontrar uma lógica no meio de lágrimas e lembranças é de uma missão dolorosa.

Mas há lógica, há razão, há sequência, é consequência. As religiões consolam, a medicina explica, a idade muitas vezes justifica, o sofrimento anterior assina e carimba.

A morte de alguém que a gente ama é exatamente a dimensão do vazio que ela deixa.
A gente chora a nossa orfandade mais do que a partida do nosso amor.
A gente culpa a morte por esse sentimento tão incômodo, avassalador e conclusivo. Ela dita o ponto final enquanto a gente ainda está se enroscando nas reticências e exclamações.

Esta semana eu me deparei com a morte. Ela se apresentou súbita, apressada,decidida. Cumpriu sua tarefa num instante e se foi.
Num primeiro instante, a impressão foi de que ela bagunçou tudo e não ficou para ajudar a arrumar. Mas, com as emoções mais tranquilizadas, tudo ficou mais claro e, dessa forma, foi possível entender a delicadeza da partida, a sensação de missão cumprida, de tempo esgotado na esfera da vida que nós conhecemos.

Diferentemente das mortes violentas ou precoces, quando não há argumentos para justificar, a morte que chega em missão de finalizar realmente uma jornada, esta morte é quase generosa. Ela não alardeia nem confessa, mas traz alívio e descanso.

A morte há muito assume uma culpa que não lhe pertence. Ela unicamente cumpre o que lhe é imposto. E o tempo, sorrateiramente passa impune, sem chamar para si a atenção e responsabilidade. O tempo é o mandante, a morte é o executor.

E como são felizes os que podem se despedir com o imenso sentimento de que nada faltou à vida que se despede. Que o amor sempre prevaleceu e ficará eterno na forma de saudades.
Morte, eu não te culpo por me tornar mais órfã. Desta causa, eu te absolvo.

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

Recent Posts

Erin Brockovich virou um clássico, mas alguns detalhes da história real quase não aparecem no filme

Quando Erin Brockovich chegou aos cinemas, em 2000, boa parte do público conheceu a ativista…

4 dias ago

Ela foi chamada de “boneca de verdade” aos 2 anos; é incrível vê-la agora, aos 18

Aira Marie Brown ainda era uma criança pequena quando suas fotografias começaram a circular pela…

4 dias ago

A pergunta de David Letterman que deixou Jennifer Aniston extremamente constrangida

Em maio de 2006, Jennifer Aniston estava em plena divulgação de The Break-Up, comédia romântica…

4 dias ago

Como um trágico acidente aéreo moldou uma estrela da comédia

Stephen Colbert se tornou um dos rostos mais conhecidos da televisão americana graças ao humor…

4 dias ago

Esta foto de 6 garotas com apenas 5 pares de pernas está deixando todo mundo intrigado

À primeira vista, a fotografia parece bastante comum: seis jovens estão sentadas lado a lado…

5 dias ago

A menina sorridente desta foto se tornou uma das mulheres mais diabólicas da história

Nascida em 1953 no condado de Devon, na Inglaterra, Rosemary Letts parecia uma criança comum…

5 dias ago