Por Nara Rúbia Ribeiro

Quando o médico a examinou, ficou perplexo. Nunca vira, assim, um caso tão grave.

Os sintomas eram tantos! A menina não tinha mais sede de alegria, fome de contentamento. Padecia de inapetência da vida. Seguia no automático, como se viver fosse uma obrigação burocrática e o vivente um funcionário que aguarda soar o alarme da saída para bater o ponto final.

Era meio desligada, desapercebida do mundo. Algumas coisas, contudo, a incomodavam bastante. Uma delas era a lentidão das horas. Era imperioso que dia terminasse logo. Um dia a menos: missão cumprida.

Outro incômodo era a pressa de todo mundo por alcançar uma porção de coisas sentido. E depois que as pessoas alcançavam “o-seu-sem-sentido-da-vez”, corriam a forjar outras metas ainda mais estranhas e descabidas, como a fama pela própria fama, o ter o desnecessário, o possuir em esbanjamento o que ao outro falta, o dominar o outro, o apropriar-se do trabalho alheio sem a justa contrapartida.

[pull_quote_left]”Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.”
Mia Couto, no conto “O menino que escrevia versos”[/pull_quote_left]

Esse incômodo tinha um agravante máximo que, penso eu, foi o que de fato a adoeceu. É que essas pessoas se arvoram na autoridade de ditadores das regras do mundo e exigiam que a menina também agisse assim. Mundo insano que a alma golpeia e de ninguém compadece!

Os parentes se preocuparam imensamente pela desimportância que a menina dava às coisas sérias do mundo. Imagina, ela era capaz de perder tempo olhando as formigas no quintal enquanto o jornal da noite dava notícias de severas ocorrências políticas. Gostava de ficar horas em silêncio, sozinha, como se quisesse ouvir alguma vez que vem de dentro. Não tinha ambições maiores, falava com pouca gente (por falta de afinidade, mesmo)… E a solidão a assumiu por completo. Mesmo quando cercada de pessoas, ela estava sozinha. Isso era certo.

A tristeza foi se acumulando na alma. Se ninguém a aceitava do jeito que ela era, ela se deu ao luxo de também se rejeitar. Até que a situação chegou a um ponto insustentável. Ela estava fraca e abatida. Há dias não ia ao trabalho ou à escola, não comia, não saía do quarto. Seus pais decidiram levá-la ao médico, temerosos de um mal maior.

– É um caso gravíssimo, asseverou o médico.

– A menina padece de excesso de abstrato no peito, palavras petrificadas na alma, utopias invencíveis, encantamentos intocados. Tem nas entrâncias, devidamente resguardas, as dores do mundo e nutre tendência às desimportâncias. É alérgica a vacuidades pomposas e a vaidades diversas. Ela corre risco de morte.

Os pais não entenderam absolutamente nada, mas ficaram atônitos quando ouviram a palavra “morte”.

– O que podemos fazer, doutor? Ela tem cura? Diga, pelo amor de Deus, diga!

– Incurável.

A mãe chorava copiosamente.

– Podemos ajudar de que modo, Doutor?

– Caneta e papel em dosagens desmedidas. Em casos de poesia crônica, escrever é sempre a única receita, a única alternativa.

Nara Rúbia Ribeiro

Escritora, advogada e professora universitária.

Share
Published by
Nara Rúbia Ribeiro

Recent Posts

Você faz isso ao acordar? 4 hábitos matinais ligados ao risco de derrame que muita gente ignora

A primeira hora do dia costuma ser tratada no automático: levantar correndo, resolver pendências e…

13 horas ago

Esses pontinhos na visão podem não ser tão inofensivos: o que um oftalmologista recomenda fazer agora

Se você começou a ver manchas se mexendo na visão, este alerta de oftalmologista pode…

13 horas ago

Novo estudo liga autismo a fator inesperado durante a gestação e levanta alerta

O autismo pode começar antes do nascimento? Estudo traz nova pista

13 horas ago

Ela tem mais de 75 anos, não fez plástica e surpreende quem vê hoje — o antes e depois virou assunto

Você lembra dela? Atriz de olhar inesquecível surge aos 77 sem plástica e chama atenção

13 horas ago

Ela foi considerada a mulher mais bonita de Hollywood… Agora aos 86 anos, sua aparência atual está dando o que falar

Quem vê hoje nem acredita: a atriz mais bonita de Hollywood surgiu aos 86 anos…

15 horas ago

Você pode estar entendendo seu corpo errado — veja se você é ectomorfo, mesomorfo ou endomorfo

O motivo de seu corpo reagir diferente pode estar aqui — descubra qual é o…

15 horas ago