Mando para o inferno? Devolvo na mesma medida? Sento e choro?

Se há uma tarefa terrível, é a de aturar um mal humorado permanente, o que crê que a vida está sempre lhe devendo algo, que está dispensado de utilizar modos e comportamentos educados.

De primeira, a gente pondera, tira algumas conclusões, imagina alguma dureza que a pessoa passou ou está passando, e releva. E aí, toma outra patada, daquelas de ficar rodando até enjoar. O bico do sisudo começa a perder a graça.

O mal humorado é um sujeito que está se lixando para o mundo a sua volta. O mundo dele está desconjuntado e ele não quer nem saber se esbarrou, derrubou ou chutou o direito do outro de ser tratado com cortesia e cordialidade.

Ser contrariado e continuar de boa é um talento difícil de cultivar, mas muito gratificante.
Delícia é ver que o mau humorado é a outra parte. Melhor deixá-lo com seu drink de vinagre e resmungo infeliz.

Ruim, ruim mesmo é quando o mau humor contamina e passa. Aí chega a doer, porque ele vem com tudo, e traz de rodo todas as situações aturadas, toda a paciência dispensada, todos os foras e malcriações escutados. E quando esse bicho pega, ele gruda.
Desfazer um humor enfezado é difícil, é como se limpar de um óleo seboso que não quer desgrudar.

Melhor prevenir, sempre. Convidar a passar, abrir o caminho, estender o tapete, retribuir com um sorrisinho, mesmo que amarelo. Deixar o sujeito fazer o discurso da razão odiosa, xingar, espernear, rebolar, se exaurir. No meio do silêncio feito para o show de amargor, tem até chance de ele perceber o quanto está sendo inconveniente. E isso vai gerar mais mau humor ainda, mas é o processo.

Mas, e essa é a grande esperança, em algum momento ele vai se tocar, vai enxergar, vai ponderar. Se vai mudar, não tenho a menor ideia. Mas, me afogar na piscina de visgo, isso ele não vai!

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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