Guilherme Moreira Jr.

Joker (Coringa) é a bomba relógio que de tempos em tempos fechamos os olhos.

Vamos falar sério: Joker não é um filme baseado em quadrinhos. Ele tem personas de quadrinhos que foram baseadas num filme real. Sim, real. Não tem nada de comédia em Joker. Nada. É um filme trágico, catártico e principalmente, uma denúncia preocupante sobre a sociedade atual.

Todd Phillips falou sério quando disse que queria algo novo, com uma abordagem completamente diferente de tudo já feito. E perceba, ele estava absolutamente certo.

Desde o primeiro ato, o longa estuda de forma complexa e às vezes assustadora, sintomas emocionais e comportamentais que são ignorados por todos. Pelo Estado, pelos cidadãos, por pessoas como eu e você. A falta de assistência e empatia vem para antever o caos a ser instaurado quando não compartilhamos – não das mesmas ideias, mas no mínimo dos mesmos sentimentos sadios e de direito para toda e qualquer pessoa.

Primeiro, é completamente preguiçosa a ideia de pensar no filme como agente incitador de violência. Há inúmeras, mas inúmeras produções que tratam da violência gratuitamente e puramente para entretenimento. São essas que deveriam ser objeto de amplas discussões acerca do que é ou não qualidade – entende-se arte. Joker é artisticamente composto de fidelidade aos problemas atravessados, especialmente hoje, de gente comum que é fruto de um sistema selvagem de abandono.

Obviamente, nada disso faz desses humanos nem completamente vítimas e muito menos desumanas. Mas desperta incômodo, confusão e, na absurda maioria dos casos, desespero. Olhe para a persona de Thomas Wayne. Ele é rico, branco, hétero e usual do argumento clássico de quem nunca viveu o medo e a falta do básico; meritocracia é a sua bandeira. Fácil de falar quando se tem tantos privilégios.

Temos Arthur Fleck, consequência doentia de padrões sociais que despedaçam o indivíduo dia após dia até que ele implode e explode. Dá pra entender o receio americano de novos ataques, claro. Visto pelo lado das diversas famílias, com certeza. Mas nada disso afasta a responsabilidade da reflexão do verdadeiro problema: a psique vs. emocional. Enxergar essas situações aparentemente separadas como números, como favores ou como aberrações que não se encaixam no “nosso normal” é a causa dos muitos distúrbios e tristes desfechos. Há exceções, concordo. Existe o mal. Mas até que ponto sabemos realmente diferenciar o mal do produto criado por nós quando nos afastamos com caras feias e narcicismos exagerados de alguma simpatia pelo outro?

Joker não é sobre a jornada de um herói incompreendido, mas também não fala sobre o nascimento de um vilão megalomaníaco com características intelectuais sedutoras. Joker é a bomba relógio que de tempos em tempos fechamos os olhos. É o elefante na sala que a gente se espreme pra caber do lado porque não queremos construir um lugar melhor para todos.

Todd Phillips realizou, em todos os sentidos cinematográficos, o que é conhecido como obra-prima. E Joaquin Phoenix criou, encarnou, ganhando ou não indicações ou prêmios, a atuação mais sincera e intensa que todos do meio gostariam de experimentar um dia. Foi o auge. Joker merece ser lembrado, merece ser revisto e indo mais longe, merece ser dissecado por muitas teorias e estudos porque, ele de fato é, objeto e sujeito das nossas maiores mazelas.

Imagens: reprodução

Gui Moreira Jr

"Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro"

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Gui Moreira Jr
Tags: Joker

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