Vejam o que acontece quando combinamos a street art de JR e os textos de Joilson Kariri

Por Josie Conti e Nara Rúbia Ribeiro 

A arte dá voz e traduz realidades que muitas vezes podem parecer sem sentido.

O trabalho de street art que o premiado fotógrafo francês JR vem desenvolvendo pelo mundo nos últimos anos apresenta a colocação de painéis gigantes com fotografias de pessoas que moram em localidades socialmente excluídas. JR torna visível o “invisível” através de verdadeiras galerias de arte a céu aberto: favelas do Rio de Janeiro como as do Morro da Providência, ruínas em Xangai, a periferia de Paris e comunidades de Serra Leona, na África são alguns exemplos de alguns dos lugares onde esse artista humanista dá olhos a quem precisa ser visto e, com esses olhos, mostra ao mundo que há vida e que ela tem uma força maior do que qualquer exclusão.

Já o brasileiro Joilson Kariri é professor, escritor e traz em si a capacidade sublime de dar voz à realidade nacional. Em seu recém lançado livro “A noite do despejo”, descreve a história de uma noite marcante nas vidas dos miseráveis moradores de uma favela fundada por Dado, narrador dos fatos, e Júlio, quando toda a favela se vê ameaçada de despejo por uma ordem judicial.

Não bastasse isso, percorre uma outra noite ainda mais sombria: a noite das almas daquela gente que tivera desabrigados os sonhos já mirrados pela vida.

Abaixo a intersecção de olhares e palavras mostram nosso objetivo de chegar a essência.: do olhar a fala, do impessoal ao pessoal, do invisível ao presente.

Morro da Providência- Rio de Janeiro

Aqui não se esmorece, senão morre. E morre de jeito ruim, que é um morrer em que se segue respirando. Tenho pra mim que Calixto morreu dessa morte malvada. Ele é agora só um morto que respira, que grunhe dores e só conversa pelos olhares.

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Na sala, Calixto ainda era um alheado, falando só pelos olhos, que diziam de um querer de morte. A perna aleijada, cheia de arames, repousava esticada por cima de uma almofada velha. Os remédios deixados ali do lado, sobre uma cadeira, serviam para tirar umas dores e dar outras mais doloridas, lá na alma.

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Paramos diante de um barraco onde duas crianças disputavam um chiclete mastigado. A menina nos olhou com grandes olhos de susto, desistindo da disputa. O menino, um pouco menor, enfiou depressa a borracha suja na boca de dentes falhados. (…)Subimos até o asfalto. Júlio agora guardava para si as queixas da fome depois de ver as crianças disputarem a borracha imunda do chiclete achado.

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Eu sabia o que ela ia me contar, sabia já do destino que a filha se dera. Priscila se dera para o mundo, pra vida difícil e pros homens famintos de amores pagos, caíra na imundice do mundo pela única brecha que lhe coube passar. 

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

A vida enrola e a morte desenrola, era o que sempre dizia Carminho, esclarecendo que lá na frente uma se emendava com a outra. E quando esse encontro acontece, a morte toma o serviço da vida, mas recusa as cargas e as agruras. Carminho era sabido, mas também enganador.  

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

De repente se ouve um batuque surdo, depois outro, e outros mais. Com os cassetetes os homens da polícia dão nos escudos, numa percussão aterrorizante. O mundo estremece, as pessoas estremecem. Os cães abandonam a vadiagem de capturar moscas nas poças de lama, e correm assustados.

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Prosseguiu desenrolando o novelo das lembranças, contou de outras vivências dificultosas, de desemprego, doenças e fome, das tentativas desesperadas de se acertarem em outros cantos. E essas coisas ela contava como quem se esvazia, botando pra fora numa ânsia de se livrar logo, mas saía dela e me adentrava pelos ouvidos cansados, e me enchia. 

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Quase já não se via nenhuma sobra das claridades da tarde. A noite aos poucos chegava para o serviço de escurecer o mundo.

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Agora a garoa era quase uma chuva, tingindo de branco o escurecido da noite. Eles mandaram cortar a energia da favela. Desci novamente o morro apinhado de casebres, dessa vez por outra viela estreita e lamacenta, me apoiando nos barracos ao mesmo tempo em que tentava em vão me proteger da garoa.

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Calixto não, esse não sonhava com nada, pois só desejava era morrer, eu acho. Ainda temos nos desmantelos dessa vida um arco-íris lá nos horizontes, que perseguimos sem nunca alcança-lo, mas que corremos atrás como gatos que tentam agarrar uma réstia de luz, mas ele, coitado, não tem é nada, nem o horizonte.

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Priscila se desgastava no banho, se esfregando, se ensaboando e se esfregando, numa desordem sem sentido, querendo limpar a dignidade maculada. Isso nunca ia dar jeito, tem sujeira do mundo que se dá é na alma da gente, gruda ali como piche derretido, que não se dilui com água e sabão.

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Esse terreno todo aqui é casa de João de barro e vocês é que são os periquitos. Deus fez a terra para todo mundo, cada um com seu pedaço. Mas esse pedaço é de outro filho dele, não é de vocês.

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Mas ele era só um morto de alma aprisionada num corpo vivo, que males lhes seriam mais danosos? E amanhã então é que estaria mais morto, enfeando as ruas com suas misérias, esperando a vez de mastigar um bocado de comida qualquer, desejando que fosse o último.

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Street art de JR às margens do Senna, Paris

A mãe se arriou, foi se desmoronando pela parede até encolher-se toda num montinho de gente no chão, as mãos cobrindo o rosto que já fora bonito. Doeu-me aquela música, me doeu muito. O preto aleijado nem me olhava mais, voltara seus olhos mortiços para o fogo da vela.

“A noite do despejo”– Joilson Kariri

Imagem do projeto “Women are heroes, Sierra Leone
JR_Shanghai

Mas a atuação do artista francês JR vai muito além da exposição dos painéis gigantes. Seu trabalho tem um fundo humanitário, e seu projeto mais recente, “Women are Heroes” é uma denuncia à situação dramática a que são submetidas as mulheres africanas como mostra o vídeo abaixo.

TRAILER ” WOMEN ARE HEROES” from SOCIAL ANIMALS on Vimeo.

 

Já para adquirir o livro “A noite do despejo” acesse  No Facebook- Sertão Urbano ou envie e-mail diretamente para anoitedodespejo@gmail.com

Saiba mais sobre Joilson Kariri

+ JR– página oficial

 

Josie Conti

JOSIE CONTI é psicóloga com enfoque em psicoterapia online, idealizadora, administradora e responsável editorial do site CONTI outra e de suas redes sociais. Sua empresa ainda faz a gestão do site Psicologias do Brasil. Contato para Atendimento Psicoterápico Online e EMDR com Josie Conti pelo WhatsApp: (55) 19 9 9950 6332

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