crítica social

Eu já me chamei Tatiane Spitzner

Por Ludmila Clio

Eu já me chamei Tatiane Spitzner. No começo, eu me sentia especial. Aquele ciúme me parecia proteção, aquela implicância com a roupa que eu vestia me parecia zelo, aquelas entrevistas perguntando quem era a pessoa que me cumprimentou na rua me pareciam preocupação. É, eu não percebia. A gente não percebe. A gente simplesmente começa a aceitar que esse é o “jeito da pessoa” e vai se adequando. Foi o que eu fiz.

Com o tempo, fui parando de usar certas roupas, certas maquiagens. Fui falando menos nas rodas de amigos, comecei a fingir que não via as pessoas na rua para evitar cumprimentá-las e cheguei até ao ponto de atender ao telefone e fingir que era engano, só pra não ter que dar explicações eternas sobre o que eu estava falando, já que a desconfiança pairava até sobre meu comportamento com a minha própria mãe.

Parece absurdo. É absurdo.
A gente simplesmente não percebe que dia a dia vai falando menos, desviando olhares, trocando de canal, doando roupas que a gente gosta, perdendo o brilho, o apetite pela vida.

Até que um dia o inesperado acontece. A violência social e psicológica passa a ser física. De repente o “protetor” vira um demônio e vai com tudo pra cima de quem ele diz amar. O sangue escorrendo nem é sentido. O que dói pra valer é a dignidade esvaindo por dentro. Os hematomas, puxões de cabelo e arranhões se misturam à adrenalina paralisante da humilhação ora vivida.

Não, você não acredita. Você, mulher ainda em formação ou já empoderada, você que se deu, se doou, se submeteu, respeitou o outro atropelando a si mesma, você simplesmente não acredita.

No dia seguinte, o pedido de perdão, o choro de crocodilo e você, já tão enredada nessa trama psicopata, se comove. De fora a maioria diz que jamais se comoveria, mas você, só você que já viveu esse inferno é capaz de dizer que sim, a gente se comove. E perdoa. E tenta esquecer. E se cala de novo, mais um dia, mais um mês, ou até à proxima vez.

Eu já me chamei Tatiane Spitzner. Nossa diferença é que eu morava no térreo, estava grávida quase parindo quando conheci o inferno e sobrevivi. Ela não.

E se você hoje silenciosamente enfrenta esse demônio, de todo meu coração eu te imploro: aja, denuncie. Nem todas têm a chance que eu tive. Muitas, como Tatiane Spitzner, morrem esmagadas na calçada da vida, defenestradas por seus próprios parceiros, os mesmos que sorriem ao seu lado nos álbuns de família, nas fotos das redes sociais.

Eu já me chamei Tatiane Spitzner, mas há muito tempo, não mais.

***

Artigo publicado originalmente em nossa página parceira A Soma de Todos os Afetos.
Para acompanhar outros texto de Ludmila Clio, siga também a sua página no Facebook e o seu blog.
CONTI outra

As publicações do CONTI outra são desenvolvidas e selecionadas tendo em vista o conteúdo, a delicadeza e a simplicidade na transmissão das informações. Objetivamos a promoção de verdadeiras reflexões e o despertar de sentimentos.

Recent Posts

Pouco antes de morrer de câncer, ele ainda mantinha um hábito que já preocupava amigos havia anos

Patrick Swayze ficou marcado no cinema pela condição física exibida em filmes como Dirty Dancing,…

6 dias ago

DESAFIO: Você pode olhar várias vezes para esta imagem e ainda deixar alguns dos 7 gatos passarem

A ilustração parece mostrar apenas um jardim cheio de detalhes: uma árvore carregada de folhas,…

6 dias ago

Uma desconhecida apareceu no cemitério com um envelope e mudou o que ela sabia sobre a filha

Durante dez anos, Elizabeth criou o neto sem saber explicar uma das perguntas que ele…

6 dias ago

Desafio visual: O guarda-chuva não está onde você provavelmente procuraria nesta livraria cheia de detalhes

A ilustração de uma antiga livraria parece comum nos primeiros segundos. Livros ocupam quase todos…

6 dias ago

Mary Ann Bevan aceitou ser exibida em público, e o motivo tinha relação direta com seus quatro filhos

Durante boa parte do fim do século XIX e do início do século XX, pessoas…

1 semana ago

Algumas das fotos mais interessantes de Diana não são as mais famosas e contam outra parte da história

Poucas figuras públicas foram fotografadas com tanta frequência quanto a princesa Diana, né? Durante os…

1 semana ago