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Essa série te conduz com cuidado — e usa isso pra esconder o que realmente está acontecendo

Tem série que grita “mistério” desde a primeira cena. The Undoing faz o contrário: ela te embala. É tudo polido, bonito, civilizado — e é justamente essa educação narrativa que vira arma.

Quando você percebe que estava sendo guiado para olhar sempre pro lugar “mais óbvio”, já tem informação faltando, pista passando batida e gente dizendo meia-verdade com a tranquilidade de quem sabe que você vai comprar.

A história começa com Grace Fraser (Nicole Kidman), terapeuta bem estabelecida em Nova York, vivendo aquela rotina de quem parece ter controle de tudo: carreira sólida, filho em escola disputada, marido carismático.

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Só que uma morte brutal — e a forma como a cidade reage a ela — vira o primeiro puxão no tapete. A série não tem pressa de te jogar num “quem foi?” acelerado; ela prefere te colocar dentro de conversas, olhares e pequenas incoerências que vão se acumulando como poeira no canto da sala.

E aí entra o grande truque: o roteiro do David E. Kelley (o mesmo nome por trás de dramas que adoram tensão social bem vestida) trabalha com a expectativa do público de que pessoas ricas sempre têm uma explicação pronta — e quase sempre convincente.

Em seis episódios, a minissérie vai apertando a sensação de que o “normal” ali é só fachada, enquanto Grace tenta entender quem é o homem com quem ela casou e por que tantas peças começam a não encaixar.

A direção da Susanne Bier é essencial pra esse efeito. Ela filma a riqueza sem glamour gratuito: o que fica é um conforto meio claustrofóbico, como se a casa, a escola e as festas fossem espaços onde todo mundo observa demais e fala de menos.

É um suspense que funciona menos por perseguição e mais por controle de atmosfera — e isso combina com o tipo de dúvida que a série quer plantar: não é só “quem mentiu?”, é “por que a mentira colou tão fácil?”.

Nicole Kidman segura bem esse papel de alguém que, por profissão, lê pessoas — mas, quando o assunto é a própria vida, entra num modo de negação que parece humano (e irritante) na medida certa.

Já Hugh Grant usa uma charmosa calma quase como máscara: ele não precisa levantar a voz pra dominar a cena, e isso deixa tudo mais desconfortável porque o perigo não vem com cara de perigo.

Quando o detetive Joe Mendoza (Édgar Ramírez) entra com mais peso, a série melhora: é ali que o jogo entre classe, versão oficial e “história bem contada” fica mais explícito.

Um detalhe esperto — e que ajuda a explicar por que tanta gente ficou presa no primeiro episódio — é a abertura com “Dream a Little Dream of Me” cantada pela própria Kidman.

A música tem um tom doce demais pro que a trama vira depois, então ela funciona quase como aviso irônico: a série vai cantar baixinho enquanto prepara o choque.

Agora, nem tudo é precisão cirúrgica. The Undoing gosta de segurar certas cartas por tempo demais e, em alguns momentos, parece mais interessada em manter o assunto “quente” do que em oferecer pistas do jeito mais limpo.

Ainda assim, como minissérie de domingo à noite, ela acerta no que promete: um suspense elegante, cheio de conversa afiada, com tensão que cresce na base do desconforto — e uma condução tão cuidadosa que, quando você nota onde estava a distração, já foi.

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Gabriel Pietro

Redator com mais de uma década de experiência.

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