Escritor brasileiro percorre África em busca de histórias infantis

O escritor brasileiro Rogério Andrade Barbosa percorre, há mais de 25 anos, o continente africano para recolher histórias infantis e preservar a tradição oral, e tem vários livros dedicados aos países de expressão portuguesa.

Com mais de 90 livros publicados e vários prêmios literários, incluindo o prêmio da Academia Brasileira de Letras na categoria de literatura infanto-juvenil, atribuído em 2005, o escritor publicou já vários contos infantis da Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde e Moçambique, e lançou em Julho um livro sobre São Tomé e Príncipe, o último país de expressão portuguesa que visitou.

“Dos países de língua portuguesa, só falta Timor, mas eu chego lá”, disse o escritor à Agência Lusa.

Nas histórias recolhidas por Rogério Andrade Barbosa, cruzam-se lendas e narrativas da cultura oral africana, povoadas por animais e seres mitológicos como o lubu, a hiena guineense, Kianda, a sereia dos rios e dos mares em Angola, ou “Sun Tataluga”, a tartaruga que é a heroína da maioria das histórias infantis de São Tomé e Príncipe.

Para recolher os contos, o escritor, que vive no Rio de Janeiro, viaja com frequência para vários países africanos, onde visita escolas, pedindo às crianças que lhe contem as histórias ouvidas aos pais e avós.

“A partir daí faço uma seleção e reescrevo as histórias com uma forma literária”, explicou o escritor, que foi professor e é especialista em literatura afro-brasileira.

Os contos, escritos em português, incluem quase sempre frases e expressões dos dialetos locais, como o “changana” de Moçambique, o “forro” de São Tomé, o quimbundo de Angola ou os vários crioulos falados nos países africanos de expressão portuguesa, que o escritor aprendeu quando foi voluntário da ONU na Guiné-Bissau, em 1979.

“Eu falo crioulo da Guiné-Bissau, e isso ajudou-me muito. Em Angola e Moçambique, que não têm crioulo, todos falavam português na escola, ao contrário da Guiné, de Cabo Verde e São Tomé. Muitas crianças começam a contar a história em português e continuam em crioulo”, disse à Lusa o escritor.

Foi na Guiné-Bissau, país onde foi professor de português de 1979 a 1980, que começou a paixão de Rogério Andrade Barbosa pelas narrativas africanas.

Quando regressou ao Brasil, após dois anos no país, tinha “dois grossos diários” com histórias e lendas guineenses, e decidiu passar a escrito os contos que recolheu.

“Nessa altura não havia nada para crianças e jovens sobre os contos tradicionais africanos. Eu tinha visto tanta coisa que resolvi criar um avô africano que contava histórias aos netos, e mandei para várias editoras”, recordou.

“Bichos da África“, publicado pela editora Melhoramentos em 1988, foi finalista do Prémio Jabuti, o mais importante prémio literário do Brasil, e venceu o prémio para melhor ilustração, tendo sido traduzido para inglês, alemão e espanhol.

“Isso abriu-me as portas. Fui pesquisando mais e voltei a África outras vezes para recolher histórias”, contou Rogério Andrade Barbosa, que desde então publicou cerca de uma centena de livros, a maioria dedicados às histórias do continente africano.

O mais recente livro do escritor, sobre São Tomé e Príncipe, foi publicado em Julho.
Para o escritor, a televisão e a internet ameaçam a tradição de contar histórias em África, o que torna mais urgente a recolha dos contos tradicionais e a preservação da cultura oral africana, defende.

No Príncipe, onde esteve pela primeira vez em 2013, ainda encontrou “muitas crianças que mantêm o hábito de contar histórias”, fruto do isolamento e da falta de recursos, numa ilha onde até a eletricidade é racionada.

“Como no Príncipe a luz se apaga à meia-noite, encontrei muitas crianças a contar histórias, porque as pessoas mantêm esse hábito”, explicou.

Foi aliás em São Tomé que o escritor ouviu uma nova variação de uma história tradicional com a tartaruga, um conto comum noutros países do continente africano, incluindo no Quénia ou na Tanzânia.

“Muitas vezes, a mesma história é contada noutros lugares, mas com variações. Em São Tomé e Príncipe, um menino de oito anos contou-me uma versão da história da tartaruga que eu nunca tinha escutado”, disse à Lusa.

O livro, intitulado “Histórias de Sun Tataluga que as crianças me contaram em São Tomé”, já está à venda no Brasil.

Paula Telo Alves / Lusa

Foto de Capa:Foto: Chris Karaba / CONTACTO

Fonte indicada: Contacto

Encontre os livros do autor AQUI.

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